segunda-feira, 13 de maio de 2013

Toda nudez será respeitada


É estranho que, mesmo depois de séculos de suposta evolução, o homem ainda não tenha aprendido ou até mesmo aceitado seu próprio corpo, quando ainda, em tempos ditos modernos, se abala diante da própria nudez, seja por admiração ou desprezo. É provável que a causa disso seja, principalmente para os cristãos, a passagem bíblica, cujo capítulo, talvez, mais instigante esteja justamente na narrativa do Pecado Original, que impõe sobre o primeiro pecador, Adão, o conhecimento de sua própria nudez, como forma de castigo por Deus, por seu ato de desobediência, por ter ele ousado comer o fruto proibido. Foge-me, entretanto, o raciocínio lógico quando penso que sendo seu Criador, porque Ele se preocuparia com algo tão natural: a condição natural da sua criatura? A verdade é que nem mesmo a mitologia aborda esse tema de forma “confortável”, assim Homero, em sua esplendorosa Odisséia, ao relatar o fato de que seu personagem mitológico, Ulisses, após o naufrágio, constrange-se por sua nudez, diante da princesa Nausícaa. Então, extremamente desconfortável o rei de Ítaca tenta esconder seu órgão sexual com arbustos. Mais de dois milênios depois e nada mudou. Provavelmente o destemido herói, 2500 anos depois, sentir-se-ia da mesma maneira: envergonhado e desamparado ao se defrontar em situação semelhante. No entanto, não podemos esquecer que em algum momento do nosso passado caminhávamos sobre a Terra naturalmente livres, e que os gregos no século V a.C organizavam suas competições esportivas completamente nus. A estátua de Sátiro, proveniente do século II a.C  evidencia um homem dormindo, talvez na rua ou numa praça, sem roupa, atitude que deveria ser considerada comum para a época. Contudo, a sociedade, principalmente a ocidental, ainda nos dias atuais, transforma esse estado natural do corpo humano na mais absurda polêmica. 

     Todavia, há quem tire algum tipo de proveito – para o bem ou para o mal - dessa 
concepção libidinosa que a nudez causa à grande maioria dos terráqueos – tirando aqui os animais irracionais, que são assumidamente mais resolvidos diante de sua própria anatomia. Um bom exemplo dessa teoria está no grupo Femen, movimento feminista que nasceu na Ucrânia em 2008, e hoje já se encontra internacionalizado. Ironicamente essa organização, que expõem geralmente os seios de suas ativistas, tem como objetivo o extermínio de práticas como turismo e exploração sexual de adultos e crianças, sexismo e todo tipo de patriarcado.  E sabe por que elas conseguem chamar a atenção? Muito simples: elas sabem que a exposição do corpo feminino, ainda hoje, tem “poder” de levar à discussão, causando controvérsias, ou seja, ninguém consegue ficar indiferente a inusitada situação, o que para o grupo torna-se positivo, assim talvez a causa pela qual elas lutam seja inserida no contexto social, ganhando adeptos. Mas nem tudo são flores.
      Aproveitando-se dessa “neurose coletiva” arraigada em praticamente toda a sociedade, já que a nudez está vinculada ao conceito abstrato de luxúria, muitas pessoas se valem desse imaginário pluralista para fazer valer seus atributos físicos, e, consequentemente, estimulam a apologia ao corpo perfeito. Quem perde? Toda a sociedade. Não existem corpos perfeitos, existem estágios da vida onde os corpos apresentam maior frescor, ninguém chega à velhice com um corpo de jovem. E aqui a coisa complica ainda mais, mas não vou me ater, nesse momento nessa questão. Minha reflexão está muito mais voltada na tentativa de entender o porquê dessa paranoia que leva muitas pessoas a buscar, a qualquer preço, uma condição física idealizada, tornando-se escravas dessa cultura industrial que fomenta a estética da perfeição. E tudo seria até normal, não fossem as inúmeras barbáries cometidas em nome dessa profana adoração. Quem é lindo e jovem sofre porque sabe que um dia deixará de ser e inevitavelmente será substituído por outro, já quem não obteve da mãe natureza a mesma generosidade no quesito beleza ou mesmo já não é tão jovem, sente-se injustiçado por sua “triste” condição humana. Inseridos, desse modo, numa sociedade na qual o processo de envelhecimento é rejeitado, muitas pessoas atiram-se na vala comum quando decidem adotar um estilo jovial de viver, mesmo que isso represente sofrimento e abnegação, ao submeterem-se a tratamentos estéticos torturantes e dietas malucas, que mais provocam malefícios do que efetivamente bem estar físico e emocional. Contudo é bom lembrar que todos caminham para o mesmo destino: a finitude inerente a todo mortal. Então porque não adotar uma atitude mais leve no modo de viver, sem que haja, com isso, tantas cobranças ou julgamentos, onde cada um seja livre para fazer suas próprias escolhas e o respeito comece pelo nosso corpo, tão complexo e sagrado, que jamais deveria ser profanado ou somente cobiçado, mas ser dignamente referenciado como portador de uma alma, sendo desnecessário que haja sobre o corpo qualquer comentário conspurcado.


domingo, 10 de março de 2013

Enfim sós

D
epois de retornar da Europa, após um período de férias, uma amiga muito querida avisou-me que irá se casar novamente, em julho próximo. O cenário não poderia ser mais romântico, na região francesa da Alsácia, há poucos quilômetros da fronteira com a Alemanha. Será a quinta vez que ela sucumbirá ao “fetiche” do casamento. Você deve estar se perguntando, mas o que há de errado nisso? Nada. A não ser o fato de que ela passa mais tempo na estrada do que em casa, pois a rotina lhe parece um verdadeiro martírio. Desde que nos conhecemos, quando fazíamos faculdade juntas, ela já era uma adepta do “voo livre”. Sua alma cigana a impede de fincar raízes em um determinado lugar ou mesmo se condicionar as frivolidades do parceiro, por isso mesmo na menor das contrariedades levanta “acampamento”, já que agora ficou mais fácil, pois está aposentada, e segue sua vida de retirante, sem ter que dar satisfação a ninguém. Todavia, nem tudo são flores, o caminho por vezes torna-se espinhoso, assim que a saudade da família aperta ou a solidão ecoa em seu âmago ela corre para o aeroporto mais próximo de onde estiver, rumo aos braços dos filhos, netos e amigos queridos. Sem contar o fato de que não raras vezes ela precisou trilhar pelas estradas da vida de forma solitária. E aqui está o motivo pelo qual minha amiga sempre decide juntar as escovas de dente: detesta viajar sozinha e as amigas ou os seus familiares nem sempre podem acompanhá-la. Por isso essa compulsão pelo casamento que, segundo sua própria definição, deve ser eterno enquanto durar a lua de mel ou a viagem. Porém, há quem veja nessa atitude singular certa futilidade, já que seria um mero acordo pré-nupcial de turismo e logística. Contudo, aqui não se pretende julgar ninguém, pois como já dizia a minha vó “o que é de gosto é regalo da vida”. Também não pretendo nesse espaço contar a vida particular dessa enigmática, maravilhosa e pragmática pessoa. Ela está feliz e isso é o que realmente importa. 
Essa história aqui narrada, até então, só serviu para abrir caminho para um assunto que nos últimos tempos têm despertado a minha curiosidade: casamento e separação. Mas afinal o que querem homens e mulheres? Se todos os outros relacionamentos foram meros enganos, como afirma minha amiga, como saber se esse não será mais um dolo? Não há como saber.


É provável que nunca na história da humanidade tantos relacionamentos tenham fracassado de maneira tão rápida, o que não significa que não tenha dado certo. Mas ainda que muitos digam que o casamento é uma instituição falida, paradoxalmente ele parece não tomar conhecimento disso, e, firme e forte, segue arrastando adeptos pelo mundo todo. Assim, somos instigados, mais cedo ou mais tarde, a entrar numa outra dimensão, onde a ordem dita que precisamos aprender a conviver com o outro, aceitando seus defeitos e aprimorando os nossos sentidos, para que seja possível uma troca efetiva nessa relação a dois, onde não será mais possível conjugar o verbo na primeira pessoa do singular.
O amor rima com dor
Na Provença, do século 12, os trovadores tinham uma apreciação complexa do amor romântico: a dor gerada pela visão da figura graciosa, a insônia provocada pela perspectiva do encontro, o poder de algumas poucas palavras ou olhares para determinar o estado de espírito de alguém. Nove séculos depois, apesar de alguns avanços, continuamos com a mesma sensação, sendo que a maioria sonha poder um dia encontrar a sua “tampa da panela”, porém, apesar dos esforços, às vezes mais de um lado do que do outro, essas peças descobrem que não foram feitas sob medida, e por isso mesmo saem à procura de outra, cujo encaixe seja perfeito e as complete de forma plena. Este é um risco calculável, mas não tem jeito, não há fórmula que garanta uma felicidade eterna, e a velha máxima de que “seja eterno enquanto dure” ainda parece a coisa mais sensata a fazer quando o ajuste não é mais possível. O que fica difícil de entender é o motivo que leva muitas pessoas a obrigar o parceiro(a) a continuar a relação, mesmo quando o amor, o respeito, a admiração, a atração e a cumplicidade deixam de existir. Essa relutância está bem exemplificada na letra da música, cujo título sugestivo chamado Pedacinhos, composta por Guilherme Arantes, elucida o que sobra da relação quando há uma conformidade e falta de auto estima... Pra que ficar juntando os pedacinhos do amor que se acabou. Nada vai colar. Nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo e os remendos pegam mal, logo vão quebrar...


Pegando carona nessa na linda composição podemos dizer que continuar um relacionamento baseado em mentiras ou sentimentos retroativos é um contrassenso, já que segundo os especialistas a paixão dura no máximo quatro anos - exceto aquela considerada platônica.  Assim, o desafio é saber transformar aquilo que sobra da euforia dos primeiros anos em amor, compreensão, respeito e cumplicidade. Isso tudo, entretanto, parece ter ficado de lado quando a maioria deseja sentir novamente a adrenalina causada pela força da paixão que faz com que a pele fique ruborizada e a temperatura do corpo ascenda, fazendo o coração bater mais rápido e o desejo sexual se tornar mais intenso, além de alterar o estado de consciência dando lugar à euforia.  Sensação que muitos procuram fora de casa. Eis os elementos que homens e mulheres, assim como um vício maldito, tentam manter a qualquer custo sob a égide do casamento. Uma batalha travada diariamente, para que a guerra a sustentar esse sonho de estar constantemente apaixonado seja vencida. E quem já não sentiu uma vontade incontrolável, de após o término da paixão, acabar tudo e dar chance a uma nova história de amor, não sabe a que me refiro. Apesar disso a maioria dos casais ainda tenta, após o fim do período romântico e turbulento, investir no relacionamento, buscando renovar o sentimento com companheirismo e afetuosidade, dando à relação certa estabilidade, canalizando seus sentimentos aos filhos, que sem saber tornam-se a desculpa perfeita, em certos casos, para que o fatídico relacionamento tenha continuidade. Embora essas atitudes nem sempre alcancem o resultado esperado, muitos casais, sem perceberem se “enterram” em nome de uma suposta posição social que o casamento possui dentro da sociedade ou até mesmo para não comprometer o patrimônio conquistado ou mesmo a felicidade dos filhos, ainda que passem a maior parte do tempo entre tapas e beijos, com a esperança de que as coisas possam ser como já fora algum dia. Entender que a relação não precisa ser para sempre talvez seja o caminho para que esta possa durar mais que as nossas próprias expectativas. 
     Contudo não há como negar, as relações ditas estáveis e tradicionais, nos dias atuais, passam por uma crise de “identidade” e apesar dos inúmeros apelos da própria sociedade em prol da união da família, o casamento atravessa por uma turbulência generalizada, expondo a fragilidade humana e a falência das relações conjugais. Não sabemos mais o que buscar no outro e nem o que ele pode esperar de nós. Ser bom já não é o suficiente, para ser feliz o ser humano exige que a sua metade da laranja seja perfeita. E assim como a minha amiga todos fogem da rotina do dia a dia.  Mas não há como fugir do óbvio, os homens com o advento da pílula azul ganharam a liberdade e a garantia de que fora de casa o desempenho sexual estará garantido. Em contrapartida as mulheres se descobriram, e mais cuidadosas exigem do parceiro o mesmo desempenho que teriam com as suas amantes. Com isso, embora as batalhas sejam vencidas ao longo do relacionamento, ganhar a guerra  se tornou bem mais complicado, porque cada um está preocupado com o seu conceito particular de felicidade. Diante disso acredito que seja muito difícil que os nossos filhos possam presenciar ou até mesmo festejar Bodas de Ouro ou mesmo de Prata, pois escolhemos que mais vale grandes emoções, ditas pelos especialistas de monogâmicas sucessivas do que a rotina de uma monogamia desvanecida. Podemos dizer, entretanto, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a sempre a possibilidade de um grande e “eterno” amor nascer após a finitude da paixão, que talvez para alguns poucos felizardos jamais tenha fim. É apostar para ver!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnaval ou bacanal


 
A
 palavra "carnaval" está relacionada à ideia de deleite dos prazeres da carne, arcado pela expressão "carnis valles", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres. E nesse caso, especificamente, precisamos concordar: a tradução é literalmente fidedigna à atual fase da festa brasileira, salvo algumas exceções. Em seu segundo livro de poesias, publicado em 1919, cujo título era Carnaval, Manuel Bandeira escreveu um poema bastante sugestivo chamado Bacanal, nele o poeta já sintetizava de forma explícita o “espírito” carnavalesco daqueles tempos: Quero beber! Cantar asneiras. No esto brutal das bebedeiras. Que e tudo emborca e faz em caco… Evoé Baco!... (continua)”. No entanto, mal sabia ele que outros carnavais, ainda mais “bacanais”, estavam por vir, e o seu prenúncio nunca fizera tanto sentido como agora, cem anos depois, onde os homens se acabam de tanto beber e as mulheres desfilam nuas pelas avenidas dos inúmeros sambódromos espalhados pelos grandes centros do país, formando dessa forma um dueto perfeito, onde a ordem dita que ninguém é de ninguém, e, ao som do tanto faz, o relevante é trocar saliva com o maior número possível de pessoas, enquanto durar a festa. Assim tudo fica resumido a seguinte premissa: no carnaval tudo é permitido e todos os brasileiros são coniventes com esse tipo de divertimento. Mentira.
Nós só precisamos mostrar arte e raça... o mais é resto
     Por isso fica impossível, nos dias atuais, pensar em carnaval sem relacionar a festa à nudez explícita e vulgarizada das muitas mulheres que desfilam nas escolas de samba, nos blocos carnavalescos de rua ou em cima de trios elétricos e aos numerosos litros de cerveja que são consumidos diariamente, durante a grandiosa celebração. É algo assombroso, para não dizer vergonhoso. O bom senso nesse caso passa longe, quando mulheres se expõem, de maneira acintosa, como criaturas atléticas e libidinosas, deixando a impressão de que estamos na era cibernética do sexo, cujas imagens de fêmeas musculosas representam o universo feminino “robotizado” de forma puramente comercial e artificial. Inseridas nesse contexto superficial desfilam bundas e peitos camuflados pela ordem carnavalesca: o poder financeiro, que nesse caso determina o valor do investimento “corpóreo”. Assim temos a ideia de que tudo pode ser negociado, até a compra de um “corpo perfeito” para incitar a pluralidade do desejo masculino. E nesse caso, obviamente, conquista mais quem pode pagar pelos incontáveis tratamentos estéticos, como fez a compulsiva por cirurgias plásticas, Ângela Bismarchi, que segundo dizem sempre compra o posto, assim como outras famosas, de rainha de bateria de várias escolas de samba. Ao que tudo indica, então, samba no pé, carisma e sedução pelos neurônios, está fora de cogitação. A priori fica estabelecido que o carnaval tornou-se um divertimento vazio, cuja imagem, para aqueles que estão de fora, é a da propagação da prostituição e do turismo sexual - impulsionado pelo aumento da chegada de turistas estrangeiros no país e pelo apelo dissoluto da festa. Mas essa leitura do que parece ser uma regra traz mais mazelas do que benefícios aos brasileiros, passando a ideia de que todos compactuam com esse comportamento explícito de vulgaridade, cuja propagação da prostituição, das brigas e do aumento considerável do consumo de bebidas alcoólicas se perpetua em nome da cultura da Nação. Prato cheio para um bacanal. E aqui essa loucura pode ser explicada por Friedrich Nietzsche quando diz que a “Insanidade em indivíduos é algo raro - mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra.”

A proliferação dos mijões deixa o passeio público intransitável
Foliões contribuem para a degradação ambiental. Até quando?
      Esse carnaval de fachada, aclamado e “vendido” no exterior, entretanto, é puro marketing financeiro, para atrair dinheiro de fora. Recursos esses que não são usados apropriadamente para eliminar o rastro de sujeira e depredação deixado pelos foliões, após o fim do feriado festivo. São milhares de produtos, latinhas e garrafas plásticas, principalmente, descartados em locais inapropriados – entupindo bueiros e poluindo os rios, lagos e o fundo do mar -, gerando uma degradação ambiental, fato que caracteriza a festividade como desgraçadamente insustentável. Ponto para o bacanal. Outro fator preponderante é a exalação do mau cheiro que fica impregnado nas vias públicas por causa da combinação de um grande número de pessoas nas ruas e o elevado consumo de bebidas, o que faz alavancar o crescimento exponencial dos “mijões de canto”. Tudo isso somado ao aumento de temperatura causa repúdio naqueles que precisam transitar pela localidade, e onde, mais tarde, são necessários milhares de litros de água para recuperação da limpeza urbana.

O carnaval é uma arte popular, e dispensa apelações
     E você que adora carnaval deve estar se perguntando: ela está sugerindo o fim do carnaval? Não se trata disso. Na verdade eu acredito que está mais que na hora de toda a sociedade e os órgãos competentes se mobilizarem com a finalidade de repensarem uma forma sustentável e digna de recuperação dessa festa popular. Sem os exageros pontuais, hoje cometidos. Se haverá desfiles de mulheres despidas, que seja em ambientes apropriados, e não em vias públicas. Se as pessoas querem beber até cair, problema delas, mas daí a sujar toda a cidade é outra coisa, se decidirem transar, que seja em locais adequados, se precisarem urinar, que o façam de forma civilizada. Aqui não está em discussão a abolição da festa. O que se espera é que o carnaval tome um rumo mais sustentável, com o resgate de certos padrões de comportamento, onde as mulheres não sejam expostas como mercadorias ou quimeras devoradoras de homens. O que se deseja é que uma bandeira de civilidade seja hasteada em prol dessa tão importante festa popular brasileira, que deveria ter como único objetivo a propagação da alegria, permeada pela responsabilidade social, cultural e ambiental. Não podemos continuar compactuando com essa forma promíscua e irresponsável de divulgação do carnaval brasileiro. Não é uma questão de preconceito ou algum tipo de moralismo religioso, mas buscar o bom senso, quiçá o bom gosto, que se perde na exposição apelativa e desnecessária de certas figuras esdrúxulas. Uma forma honrosa de resgatarmos nosso orgulho de cidadãos brasileiros. O Brasil não é só carnaval, futebol e mulher pelada! Nosso país é imenso e lindo, e, dividido por regiões, possui em cada uma delas características particulares, sendo, ainda, detentor da mais linda floresta do mundo. Mesmo que haja disparidades sociais, somos uma Nação permeada pela alegria e solidariedade. Talvez porque sejamos ainda muito jovens em relação ao velho mundo, e não tenhamos atingido a maturidade necessária para um crescimento efetivo, nos falta um pouco de juízo. Mas estamos caminhando rumo à fase adulta, e com esse solo gentil certamente chegaremos à terceira idade dignamente, depois de ter aprendido que nenhum país alcança exponencial respeito exportando conceitos abstratos de divertimento: carnaval, futebol e prostituição. Brasil mostra a tua cara!
A beleza está no gingado, no amor à escola e na fantasia...

* Como o caro leitor pode observar: procurei retratar nessa postagem o melhor do carnaval brasileiro: os desfiles primorosos de algumas escolas de samba, embora não pudesse deixar de colocar a foto dos mijões ou mesmo a imagem que representa um bacanal, na sua origem. As imagens que retratam  o lado obscuro dessa festa popular podem ser encontradas aos milhares na internet, infelizmente... Por isso decidi não fomentar ainda mais essa "vergonha nacional"...




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O beijo da ignorância e da incompetência

O
A dor dos gaúchos evidenciada no seu maior símbolo
 que dizer sobre a tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria, que ainda não tenha sido dito. Mesmo consternada e solidária aos familiares, pois amor de mãe é universal, sinto que os elementos que apontam para os culpados são equivocados. É óbvio que houve negligência, embora a soma dos produtos não altere o resultado, principalmente no que diz respeito a esse caso, foi o conjunto de vários fatores que levaram a esse fatídico acontecimento, principalmente a ignorância dos rapazes da banda; da prefeitura que concedeu o alvará e dos donos da boate que não procuraram fazer daquele local um espaço adequado à prática de divertimento seguro e responsável. Todos, em maior ou menor escala, “pecaram” por desconhecerem regras básicas de segurança: espuma + faíscas = incêndio.  Assim sendo entendo que não somente os donos da boate ou mesmo os integrantes da banda deveriam ser apontados como os únicos culpados ou negligentes. E, ainda como é possível cumprir uma legislação de segurança se ela praticamente inexiste? Onde fica a responsabilidade dos órgãos públicos, cuja obrigação era de somente conceder alvarás de funcionamento a lugares onde o “estopim e pólvora” não poderiam ser armazenados no mesmo recinto? E o que dizer daquele “projeto arquitetônico”, totalmente inapropriado para uma casa noturna, com teto extremamente baixo, corredores estreitos, escadas e uma única saída, o que evidenciava que sair daquele local, com péssima sinalização, dificultaria uma evacuação rápida e segura, dando ao ambiente um aspecto de tenebrosa arapuca. No entanto, somente agora, depois de tantas vidas ceifadas é que o assunto vem à tona. E todos os “especialistas” dão suas opiniões contundentes e definitivas: o lugar era uma verdadeira armadilha, pronta para ser acionada por qualquer um que frequentasse o lugar.  




   Propagação das teóricas penalidades divinas: Outro fator que provoca perplexidade e indignação, diante dessa tragédia é o fato de algumas pessoas fazerem piadas estúpidas com o fato, além de atribuírem à culpa ao acontecido, na boate Kiss, ao prenúncio “diabólico” visualizado num cartaz, a princípio, elaborado pela própria banda, colocado à entrada do estabelecimento, cuja imagem de uma caveira incandescente imitava a função de DJ, com corpos dançando em chamas, ao fundo. Não demorou até os crentes relacionarem o fato a todo tipo de castigo celestial ou até mesmo a algum pacto satânico. Conceito este difundido por pessoas ignorantes que se auto intitulam servas da palavra de Deus, que com isso propagam, nesse momento de tristeza e desolação, a ideia de que ser estudante universitário, alegre, jovem e bonito, e ainda ser amado pela família e amigos, é pecado passível de punição. E para piorar a inveja parece ser o grande motivador  dessas pluralistas manifestações religiosas e das piadas infames, propagadas pela internet, que ganha adeptos muito mais pelo desejo hipócrita de fazer parte, também, desse grupo particular de jovens, que sabe viver, do que por qualquer outra coisa. Dessa maneira a ignorância se aglutina ao movimento desprezível daqueles que, desprovidos de amor próprio ou de amor pelo próximo, torcem pela derrocada do outro, sob o pretexto de que essa é a vontade divina, não esquecendo de que julgar é confortável e coloca os “juízes” numa situação ligeiramente superior ao resto da humanidade.
Contudo, essa maneira de observar os fatos evidencia o que o sujeito leva no coração. Ou seja, a malícia está no olhar daquele que consegue ver perversidade em tudo, e, consequentemente, dá à maldade a elevação que ela não possui, e retira do Bem o crédito da grandeza de união que se estabeleceu entre pessoas que jamais se viram ou se conhecerão, mas que nesse momento de grande dor e tristeza, colocaram-se à disposição para ajudar da maneira como podem e com a finalidade de tentar amenizar o sofrimento de tantas famílias.
 Assim ao olharmos o tal cartaz, onde se avista um jovem, vocalista da banda, ao lado da ilustração, permeada pelo fogo, podemos afirmar que o tal anúncio chamava à celebração à vida. Então considerar essa exaltação como um mau agouro é outra ignorância de quem faz uma interpretação equivocada, sem conhecer o quanto esse elemento é necessário à humanidade, já que o fogo é um dos quatro elementos que regem o planeta, sendo considerado um símbolo sagrado em quase todas as religiões: hinduísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo...
Assim, aceitar essa teoria ridícula de que Deus teria lançado sua ira sobre aquela casa noturna, certamente é a maior blasfêmia que se levanta contra a maior e mais benevolente entidade do universo. Contudo, não se pode negar que esse deve ser o desejo dos idiotas, infelizes e mal amados, que não conseguem lidar com a própria frustração e que se alimentam da esperança de ver pessoas saudáveis e bem resolvidas “barradas” na porta do paraíso, pelo simples fato de que aqui foram felizes.  Acaso está escrito em algum lugar que a alegria deve ser combatida com castigo divino? Caso isso fosse verdade o carnaval, considerado uma festa pagã, com mulheres desfilando nuas, não sofreria muito maior penalização? E quando um templo ou uma igreja pega fogo, levando vários fiéis à morte, isso também pode ser considerado castigo? É inacreditável como o homem gosta de manipular e interpretar as leis, até mesmo a Lei Divina, que, segundo a vontade de certos seres humanos, não pode ser universal muito menos democrática, pois o que serve para condenar uns deve isentar outros. "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém." William ShakespeareNenhum mal pode ser convocado ou incitado por corações alegres e bondosos. Assim como não há cartaz algum nesse mundo capaz de provocar tamanha tragédia. Somente a ignorância e a incompetência podem causar tanta dor e sofrimento. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Comemorações a álcool


S
egundo definição, hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui.  E ninguém melhor do que François duc de la Rochefoucauld quando sintetizou esse conceito ao revelar de maneira mordaz a essência do comportamento hipócrita: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Ou seja, todo hipócrita finge emular comportamentos corretos, virtuosos, socialmente aceitos. Sem a intenção de fomentar ainda mais o pessimismo do moralista e aristocrata francês, pego carona nessa premissa ao observar o comportamento humano em épocas comemorativas como o Natal e a Páscoa, onde a intenção cristã deveria ser exclusivamente a comemoração do nascimento e a ressurreição de Jesus Cristo. Porém, o intento torna-se, na maioria das vezes, uma festa pagã, onde o que vale mesmo é a ingestão absurda de bebidas alcoólicas, hábito cada vez mais bizarro e ameaçador. A cerveja e a aguardente, em especial, fazem parte desse contexto cultural, e geralmente são as mais incorporadas nessas reuniões sociais. As festividades, permeadas por situações de embriaguez, evidenciam esse caos social, onde o vício, mascarado de boas intenções, celebra a virtude daqueles que se declaram cristãos. 

     Tudo é diversão... e mau exemplo. Quando essa prática passou a ser considerada normal!? Idosos, adultos e adolescentes expondo-se de maneira irresponsável à frente de crianças, como se a bebedeira fosse uma coisa banal. O que os pais, no entanto, ignoram é que esse tipo de comportamento leva aos filhos a concepção errônea de que para o estabelecimento de laços sociais é necessário atravessar essa ponte perniciosa, cujo pedágio cobrado é a ingestão farta de bebida alcoólica. Entretanto, eles se esquecem que, uma vez cruzada essa ponte, retornar pode ser muito difícil. Assim, a falsidade dos devotos conduz às gerações mais novas um entendimento comportamental de que a bebedeira faz parte do pacote festivo da tradição cristã. Contudo, não raras vezes, são esses mesmos pais que exigem dos filhos um comportamento exemplar quando chega a hora de eles saírem para as “baladas” noturnas. Mas essa reversão de valores está equivocada, já que o exemplo, nesse caso, passa de pai para filho, e não o contrário. Por isso quando o jovem se insere nesse mundo tortuoso das drogas fáceis, talvez ele esteja a protestar pelos limites ausentes e pela falta dos bons exemplos de conduta, já que a família, quase sempre, tem sua parcela de responsabilidade. Por isso não adianta levar o filho à igreja, rezar, e, logo em seguida, se afogar em copos de cerveja, uísque, vodka, cachaça... As coisas não funcionam assim. Ou você dá o exemplo ou conte com a sorte. E é bom lembrar que não adianta chorar depois do leite derramado.

     Portanto esse modelo, que propõe uma interação social regada ao consumo excessivo de bebida alcoólica, nos leva a acreditar que o homem não sabe mais dialogar de “cara limpa”, isto é, não basta uma conversa animada e civilizada, o intuito é extrapolar, nem que isso provoque nos filhos repulsa, vergonha e/ou mau exemplo. Mas de quem é a culpa? De toda a sociedade que costuma incentivar o consumo de álcool, mesmo ciente de que esse também é uma droga psicotrópica. Ou seja, o alcoolismo não difere psicologicamente da dependência de outros tipos de drogas. Assim essa “carga negativa” é arremetida pela sociedade contra ela mesma, quando permite e incentiva de forma indiscriminada o consumo generalizado de bebidas que levam o indivíduo a uma situação vexatória e irresponsável perante seus pares, amigos e familiares e principalmente diante dos próprios filhos. E aqui cabe a famosa frase do escritor francês Gustave Flaubert “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia social”.
     É nesse momento que a hipocrisia dita ordem quando abandona a principal motivação do encontro festivo: tempo de troca de afetos e de matar a saudade. E o que deveria ser um momento reflexivo, alegre e benéfico a todos, não passa de um blefe, já que essa compulsão pela bebida tende muitas vezes a enganar a consciência para que assim sejam expostos os problemas emocionais: angústias e frustrações. Porém, é bom lembrar que a bebida só acentua o problema e comumente costuma gerar ainda mais, e que pessoas civilizadas devem agir, principalmente diante dos filhos, com o máximo de responsabilidade e dignidade. Vale aqui citar a célebre frase “Quem se modera raramente se perde” do filósofo chinês Confúcio.   
     Engana-se, entretanto, quem imagina que o intuito desse texto é a propagação da eliminação de bebida alcoólica nas comemorações festivas. Na verdade, a finalidade dessa matéria é chamar a atenção para o fato preocupante do aumento excessivo de pessoas embriagadas, que sem nenhuma responsabilidade, todos os anos, são capazes de colocar em risco, além da própria vida, a vida daqueles que juram amar, quando sem nenhuma consciência de sua ebriedade decidem dirigir.  Os números incontestáveis demonstram que é justamente nessa época do ano que o número de acidentes e a violência no trânsito aumenta consideravelmente, em relação a outros períodos do ano, consequências do alto consumo de bebidas alcoólicas. O que seria motivo para celebração da vida, rotineiramente, transforma-se em tragédia. Aquele que precisa  beber constantemente valendo-se de variadas desculpas deve, sim, procurar ajuda médica e psicológica, urgentemente. É importante ressaltar que se o objetivo das reuniões sociais é difundir a tradição e a fé cristã, e acreditando que Ele ressuscitou, fica aqui a pergunta para quem jura seguir os mandamentos divinos: acaso beber em demasia não causa desonra ao pai e a mãe, ainda que estes já não estejam mais neste plano físico? O que será que o aniversariante, Jesus, pensa ao “observar” que a maioria dos homens, pelos quais Ele ofereceu a própria vida, se embriaga, diante dos próprios filhos, em sua homenagem e memória?
                 Lembre-se, de nada adianta procurar a frente das coisas olhando de lado, POR ISSO BEBA COM MODERAÇÃO.
                                        FELIZ ANO NOVO!



terça-feira, 27 de novembro de 2012

REVISTA D'FATOS & FOTOS

T
ornar inesquecível a sua festa ou o seu baile de debutante agora é possível, basta que você, no dia do grandioso evento, entregue aos seus convidados sua própria revista D’FATOS & FOTOS, autografada ou não, a escolha é sua. Serão, no mínimo, oito (08) páginas de pura emoção, com uma tiragem, também, de no mínimo 100 (cem) exemplares, onde você poderá contar e mostrar, através de fatos e fotos, os melhores momentos da sua vida. Imagens e reportagens que evidenciarão sua família, amigos, namorado, viagens, animais de estimação, propiciando, assim, a todos os seus convidados a oportunidade de lhe conhecer melhor.
As entrevistas e a condução das matérias serão feitas por uma profissional da área de comunicação social, formada em Jornalismo, que agregará qualidade e seriedade à sua revista. A publicação personalizada visa proporcionar o compartilhamento dos seus memoráveis momentos com aqueles que fazem parte de sua importante e exclusiva jornada. Assim, expressar suas ideias e dividir suas emoções tornará o seu evento social especialmente majestoso, além de oportunizar, através do seu próprio editorial, a prestação de homenagens e agradecimentos. Toda Princesa merece ser capa de Revista, para assim eternizar essa inesquecível comemoração. 

A
 cerimônia de formatura é um dos momentos mais gloriosos da vida de um estudante,  já que é nessa data que ele sente a plenitude de sua capacidade intelectual, para assim poder desempenhar determinada profissão, escolhida em função de suas aptidões naturais. Por isso não é exagero dizer que essa celebração é uma das conquistas mais sonhadas pelo ser humano. A conclusão do ensino superior eleva a jornada de qualquer pessoa a querer compartilhar esse momento especial com os entes mais queridos, assim como expressa o reconhecimento para aqueles que, de alguma forma, contribuíram para essa vitória.
Além disso, a Solenidade de Colação de Grau é um momento de magnitude da Instituição de Ensino, quando dirigentes, professores, funcionários, pais e alunos externam seus sentimentos para provar que a missão de ensinar foi cumprida e o esforço valeu a pena.
As etapas ultrapassadas e vencidas, durante essa prazerosa, porém muitas vezes extenuante jornada, no entanto, nem sempre é do conhecimento dos mais próximos e, por vezes, caem no esquecimento, assim como os  colegas e amigos de turma, que após a formatura, por desígnios do destino, acabam perdendo o contato, mesmo com o advento da internet. Então por que não celebrar essa data com uma publicação personalizada. Através da Revista D’FATOS & FOTOS, conte sua história, homenageando de modo particular os professores, os colegas, os funcionários, os pais... As matérias serão elaboradas por uma profissional, formada em Comunicação Social, Jornalismo, que garantirá um trabalho sério e meticuloso.
Esse pode ser um grande legado que você deixará à próxima geração, que com o seu exemplo de vida, poderá com orgulho seguir os mesmos passos rumo a um futuro promissor. 

T
odas as histórias de amor começam da mesma forma: Era uma Vez... Porém, cada uma possui sua singularidade, já que é composta por pessoas, circunstâncias, culturas, épocas e panoramas diferentes, por isso mesmo são únicas e intransferíveis.
E a sua história parece romance de cinema? Então por que não compartilhá-la, através de uma revista personalizada, com os seus convidados: familiares, amigos e colegas, na linda cerimônia que celebrará o seu casamento. Assim, além dos bem casados e das lembrancinhas, você poderá oferecer, ainda, aos seus convidados uma publicação original, que contará com um lindo editorial, onde o casal poderá fazer uma declaração de amor, homenagens ou agradecimentos.
 Sua revista de D’FATOS & FOTOS poderá trazer entrevistas e reportagens com pessoas importantes ao casal: parentes, amigos, colegas de trabalho – podendo ser as próprias testemunhas da cerimônia civil e/ou religiosa – que irão relatar e/ou desejar ou mesmo aconselhar, ao casal enamorado,  como manter o fogo ardente da paixão. Será uma publicação única, e deverá ser preservada por todos para sempre, já que ninguém se desfaz daquilo que faz parte de sua vida. Sua revista será passada de geração a geração, como uma testemunha ocular a fortalecer ainda mais essa linda história de amor. Por isso não distribua, tão somente, as “lembrancinhas”, elas inevitavelmente serão esquecidas. Assim sendo, lance a todos os presentes à sua magnífica cerimônia matrimonial, a sua esplendorosa revista, cujo conteúdo deixará a todos os convidados a certeza de estarem diante de uma verdadeira e autêntica história de amor, a sua, que um dia poderá ser lida pelos seus filhos e netos, que orgulhosamente saberão que fazem parte dessa história. Para maiores esclarecimentos entre em contato através do e-mail: rosaide.gomes@hotmail.com

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Verdade seja dita


N
essa semana uma frase chamou a minha atenção, aquelas escritas nos para-choques dos caminhões, “O homem procura pela verdade, mas quando a encontra é incapaz de suportá-la”. Receio que essa locução seja, na maioria das vezes, uma realidade. Quantas vezes nos deparamos com situações onde a verdade precisou ser suprimida. Muitas vezes besteiras. Mas o suficientemente grandes para salvar relacionamentos amorosos e amizades. E quem por motivos profissionais já não foi obrigado a mentir? E aquela famosa dor de cabeça que apareceu na hora “H”? Ou então aquela reunião de trabalho que precisou se estender noite adentro? Desculpas “esfarrapadas” que quando “empilhadas” já não são capazes de conter o desmoronamento inevitável dos vínculos afetivos, cuja base precisa estar alicerçada sobre estruturas sólidas, sem a corrosão das mentiras.
Entretanto, é fato científico que engodos e mentiras são nossos companheiros constantes, assim como no princípio, agora e, talvez, para sempre. E nem mesmo os nossos “primos” os chimpanzés, que vivem em bando, escapam do artifício da dissimulação, quando usam de truques, tapeações e fingimentos para conseguir posição hierárquica, comida e parceiros sexuais. Mas também eles correm riscos ao tentar ludibriar o grupo, garantem os biólogos da evolução. Uma vez descobertas suas trapaças, o preço a pagar é a degradação social, exatamente igual ao que ocorre aos seres humanos. Será que Adão e Eva não passaram muito tempo observando seus parentes – os macacos – e com eles aprenderem o ofício da enganação? Ou será que eles também fazem parte de uma grande mentira, já que não suportaríamos a verdade suprema sobre a nossa origem? Parafraseando o filósofo francês, René Descartes, “Penso, logo existo”.
Contudo, contrariando a lógica, a mentira parece ter mais adeptos do que a soberana verdade, já que ganhou até uma data específica em sua homenagem, o dia 1º de abril. Agora pense se fosse sua rival a receber o merecido tributo, quem se arriscaria a sair de casa, sabendo que poderia ouvir e/ou dizer inconveniências. Certamente, nesse único dia, se conseguiria mais inimigos do que todos os outros dias do ano, já que certas verdades devem ser suprimidas, até mesmo por uma questão de educação e respeito, ou ainda porque algumas verdades, de forma velada, podem fazer sofrer, através das “boas intenções”. Segundo Samuel Langhorne Clemens, escritor e humorista conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain Algumas pessoas nunca dizem uma mentira - se souberem que a verdade pode magoar mais.” E isso faz lembrar o dito popular que diz que de boas intenções o inferno está cheio.
Não estou aqui tentando difundir a mentira como uma filosofia de vida. Mas o fato real é que ninguém é totalmente sincero, há sempre, ainda que de uma maneira sutil, uma situação que nos obriga a faltar com a verdade, mesmo que seja pela omissão, o que eu acredito que seja a forma mais branda de a humanidade conseguir conviver em sociedade. Um exemplo disso é quando você descobre que o seu chefe ou cliente é um perfeito idiota, quando revela seu lado preconceituoso, autoritário e ignorante. Você, ali diante daquele boçal, cheio de vontade de dizer-lhe umas verdades, mas pensando no quanto está difícil pagar suas contas, simplesmente se obriga, quase consentindo com aquele disparate, a se calar. É a lei da sobrevivência humana. E quem não deseja ser constantemente enganado, precisa ter a capacidade de descobrir artifícios e enganações alheias.  Ainda que a maioria prefira aceitar as mentiras que as envaidecem, às verdades que as desagradam, preceitos que crescem à medida que nos tornamos civilizados. E conforme o crítico social e jornalista, norte americano, Henry Mencken É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade quando você sabe que mentiria se estivesse no lugar dele”.
Mas quanto à questão de mentir, temos ou não esse direito? Acaso não teríamos nós o direito total de liberdade de ação, isto é, não deveria haver uma “Lei” que nos protegesse pela forma como repudiamos e negamos a mentira? Certamente as pessoas entrariam em conflitos diários. O colapso seria atribuído as nossas diferenças individuais, culturais, sociais...  E é por isso que os nossos pensamentos são apreciados somente pela nossa consciência particular. Já imaginou se pudessem ser lidos! Você decide sair com aquela sua roupa predileta e todos – em pensamentos - ridicularizando sua escolha. Ou mesmo aquele momento “mau hálito” e você “ouvindo” os pensamentos de repulsão à sua respiração e fala. Seria muito constrangedor. Ainda bem que a natureza é sábia, deu aos homens apenas o dom da fala e não de invasão de privacidade, se ele assim o faz é por escolha própria. Talvez seja por isso que mentira e verdade estejam “irmanadas” como duas faces opostas de uma mesma moeda, para que dessa forma possamos escolher o momento para fazer bom uso de uma ou de outra, mas sempre tem uma terceira opção: o silêncio.
 Embora a máxima de que uma vida não possa ser baseada sob a égide da mentira, que não costuma se sustentar por muito tempo, a verdade é a única que, dentro da ética e do conhecimento, pode conduzir à evolução humana.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Família

D
Sem a família o homem não teria alcançado relevante evolução
esde os primórdios da humanidade, quando ainda nas cavernas, que o homem obtém sua formação dentro da família, é provável que isso tenha ocorrido pela fragilidade de sua natureza humana, já que, sozinho, não conseguiria sobreviver sem a união de forças dos pais e parentes, cujo propósito era garantir à criança pleno desenvolvimento físico e intelectual, transformando-a assim em um ser sociável e preparado para enfrentar as agruras da vida. Dessa forma a família passou a ser a base fundamental que dá sustentação à formação do indivíduo. E aqui a maioria concorda que sem esse suporte tudo se tornaria muito mais difícil. No livro “Casa não é lar”, Ramón Llongueras Arola diz que “a família é o primeiro e principal contexto de socialização dos seres humanos”. Para o antropólogo, professor e filósofo francês, Claude Lévi Strauss a família é um grupo social que tem origem no casamento, é uma união legal com direitos e obrigações econômicas, religiosas, sexuais e de outro tipo. Porém, também está associada a sentimentos como o amor, o afeto, o respeito e/ou o temor. Embora, em geral, a família tenha origem em um fenômeno biológico de conservação e reprodução da espécie, atualmente ela passa por um processo de isolamento nuclear, onde se acentua o papel da mãe, na medida em que ela já não conta mais com os parentes para ajudar e, comumente, nem mesmo com o apoio do pai dos seus filhos. No entanto, não quero, aqui nesse espaço, me ater ao papel independente dos pais.
Contudo, há uma classificação bem interessante que indica, de maneira particular, as características existentes dentro desse conceito de família, sendo elas: elementar, extensa, composta, conjugada fraterna e a fantasma, sendo que esta última consiste em uma unidade formada por apenas um elemento nuclear, pai ou mãe, e o chamado fantasma, além dos filhos.
Toda família tem suas esquisitices
     Na verdade minha abordagem é muito mais reflexiva, no momento em que procuro entender qual o conceito real de família quando nos referimos à família extensa: pais, avós, filhos, tios, sobrinhos, primos, noras, genros... De forma singela, desde muito cedo, compreendi que os filhos ao saírem da casa dos pais, com o objetivo de unirem-se a alguém, formam sua própria família, deixando para trás sua referência familiar: pais, irmãos... E aqui tudo fica muito subjetivo. Dou relevância a este assunto por entender que as relações de parentesco dentro da propagada base familiar se dá muito mais pela afinidade - conjugada fraterna - do que pelo vínculo consanguíneo – quando descendem do mesmo tronco ancestral. No entanto, sempre observei dentro das famílias elementares e extensas a existência, ainda que velada, de uma rivalidade e até mesmo uma animosidade em relação aos novos agregados – sogros, noras, genros, cunhados, madrastas e padrastos. Pessoas que repentinamente são inseridas no núcleo familiar, e que por isso mesmo passam à condição de parentes da noite para o dia. Essa atitude generalizada tem provocado, ao longo dos séculos, em toda a sociedade muita controvérsia e hostilidade. A literatura está repleta de exemplos “malditos”, onde a hipocrisia da família teve uma atuação tão nefasta que o melhor seria não tê-la, como no caso da trágica história de William Shakespeare, Romeu e Julieta, cuja guerra travada entre duas famílias levou o casal apaixonado à morte. E quem não se lembra dos clássicos contos infantis que evidencia o sofrimento de jovens como a Branca de Neve e da Bela Adormecida, causados por suas odiosas madrastas, que impuseram às pobres moças múltiplos infortúnios, sendo que a última ainda padeceu com a inveja das próprias irmãs. Histórias que revelam que a dor, quando causada por parentes, é muito mais difícil de ser assimilada, já que o normal é que a família proteja e jamais provoque consternação.
A família como instituição desagregadora
     Porém, é bom lembrar que a responsabilidade pelas discórdias nem sempre é da família, muitos agregados, oriundos de outros núcleos familiares, também costumam causar tristezas e decepções, já que à primeira vista a verdadeira face fica oculta, é mais tarde que a máscara costuma cair. Infelizmente esse é um aspecto essencialmente humano. E se alguém ao ler este texto pensou que a minha inspiração veio da Carminha, personagem da novela das nove, que deveria se chamar “Avenida dos Cornos”, se enganou redondamente, ainda que haja certa coincidência, já que a personagem sempre escondeu da família e do próprio marido seu verdadeiro caráter – embora eu não tenha por hábito assistir novelas, conheço o enredo central, por isso logo me lembrei do acaso da história.
Sagrada Família
     Mas o caro leitor deve estar se perguntando aonde eu quero chegar com esse texto. É simples, estou tentando, há muito tempo, entender essa relação intrincada e complexa que leva muita gente a desistir do convívio familiar, isto é, pessoas que se afastam dos parentes, deixando para trás o caos social provocado pelo conflituoso relacionamento, muitas vezes entre seus pares e seus familiares. Assim irmãos, pais, filhos, tios, avós... perdem o contato mútuo por muito tempo, quiçá para sempre, em decorrência  de atitudes questionáveis por ambas as partes. Isso ocorre geralmente pelo excesso de intimidade entre os membros da família, cujos comportamentos conflituosos e contraditórios, além de provocar fofocas, já serviram de inspiração nos anos 90, para o filme do diretor Mario Monicelli “Parente é Serpente”. É óbvio que a intriga é tão antiga quanto o homem. Na História da Roma Antiga, Julio César costumava lançar mão desse artifício pagando pessoas a peso de ouro para espalhar boatos contra seus adversários políticos. Contudo, voltando ao tema proposto, penso que tanto os novos agregados quanto a própria família, ambos, brindes que vêm sem etiqueta de troca, precisam estabelecer limites para que a conexão entre todos pertencentes ao mesmo “clã” fortaleça a convivência familiar. E, para que isso aconteça de fato, o mais importante é que se instituam determinadas regras: como diria uma amiga “cada um no seu quadrado”, já que é inegável que, apesar dos pontuados desentendimentos, a família contribui para a formação social do indivíduo. Entretanto, para que haja uma relação saudável entre todos os parentes, é necessária a adoção de certas medidas: diálogo, respeito, limites e principalmente compreensão. É óbvio que não existe família perfeita, mas quando todos os membros reconhecem a importância de pertencer ao núcleo familiar, desenvolvendo sua responsabilidade em prol de um convívio salutar, todos saem ganhando, principalmente as crianças que, ainda hoje, carecem do afeto dos avós, dos tios, dos primos, dos padrinhos e dos amigos, que passam a compor a grande família.  
    
        

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A criatura e o criador

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C
onhecidas como Rede Social Primária ou Informal, as redes de relacionamentos como Orkut, Facebook, Linkedin, Monster, em tese, formam-se a partir de relacionamentos entre indivíduos, que em certa fase de suas vidas estabeleceram algum contato, primário ou informal. São pessoas que fizeram ou ainda fazem parte da vida cotidiana do homem moderno: amigos, familiares, colegas de trabalho, vizinhos, instituições sociais... Cada um de modo singular proporciona ao sujeito compor sua própria identidade, ao menos essa é a intenção, já que muitos agregam famosos - ilustres desconhecidos -, para assim angariar status maior perante o grupo de amigos escolhidos. Na verdade, esse intrincado procedimento leva a pensar que nossas páginas de relacionamentos são tão artificiais como o monstro criado por Mary Shelley, Frankenstein, quando recebem frequentemente membros tão distintos. Assim sendo, podemos dizer que quando optamos por nos conectar com centenas de pessoas, adicionando elas a nossa  página virtual, estamos criando um clone moderno do monstro, cujo nome poderia ser Facenstein. O problema é que criatura e criador nem sempre conseguem conviver juntos, e comumente fica difícil identificar um do outro.
Contudo, como o próprio doutor Victor Frankenstein, nessa tentativa de conectar e juntar personalidades tão diferentes, corre-se o risco de uma contumaz tragédia, ao se perceber como uma união  desordenada  de  partes desconhecidas  pode instituir algo tão irreal e subjetivo e, sobretudo, sem uma identidade definida. Sim, até mesmo porque sem noção da dosagem muitas pessoas se expõem à rede de maneira exagerada. Diante desse fato não tarda a ocorrência do arrependimento por vaidade e até mesmo por ansiedade, já que a intenção é mostrar o quanto se é culto, bonito, bondoso, batalhador, religioso, apaixonado, rancoroso, bem sucedido, emblemático, vingativo, conquistador, invejoso, simpático ou antipático... Vale tudo para chamar a atenção. E esses membros tão desconexos caem na pluralidade das páginas compartilhadas; eis novamente o surgimento do Facenstein. Devido a esse comportamento acintoso muitos são “amputados”, quando têm sua assinatura bloqueada ou cancelada sumariamente sem aviso prévio.
O paradoxo do monstro, porém, está na dualidade de sua personalidade: poética e paranoica, fazendo com que todas as partes – os faceamigos – mergulhem facilmente na paródia que se torna a criatura virtual, que, frequentemente, recebe novos agregados à sua personalidade, “novos amigos”, geralmente garimpados pela peneira da rede. Um constante processo que pode se transformar em vício, quando possui, ainda, uma ferramenta que fornece a opção curtir, comentar e compartilhar. É aqui que o bicho pega, quando o indivíduo se desnuda completamente. Embora muitos não percebam, os sites de relacionamentos são em menor escala uma espécie de reality show, ignorando esse fato muitas pessoas esquecem de que estão sendo observadas, e expõem suas fraquezas, preferências religiosas, culturais, sociais e até mesmo sexuais. Desse modo cada um a sua maneira vai se “despindo” ao evidenciar sua predileção por determinados assuntos: futebol, política, roupas, maquiagem, filosofia, animais, viagens, religião... Porém, não tem jeito, assim que o sujeito se insere nas redes de relacionamentos sua vida privada passa a ser do conhecimento de todos. Tudo acabará sob o julgamento alheio. É quando tudo descamba para a desconstrução do relacionamento civilizado, quando há uma contumaz invasão de privacidade. Então vem a pergunta que não quer calar: por que adicionamos pessoas tão inexpressivas ao nosso modo de viver, se elas estão longe de pertencer ao nosso círculo de amizades ou dos nossos interesses reais, e o pior se não conhecemos minimamente o seu caráter?
Algumas vezes, quando percebo alguns comentários de amigo para amigo, mas perfeitamente dispensáveis pela ocasião e pela exposição à rede, me vem à memória a célebre frase de Rui Barbosa “Amigos e inimigos estão em posições trocadas. Uns nos querem mal, fazem-nos bem. Outros almejam o bem e nos fazem mal.”  

Os Jovens - No entanto, ao observar o comportamento dos jovens à rede se percebe nitidamente que eles sabem melhor lidar com o mundo virtual do que os adultos, e isso, sim, é extremamente positivo, pois seus relacionamentos são mais vaporosos. Creio mesmo que eles sejam mais sociáveis, e por estarem inseridos num mundo mais globalizado e eclético, aprenderam a lidar com as diversidades alheias, e como não costumam “deixar barato”, não mandam indiretas; a resposta é objetiva, sem subterfúgios. Dentro desse contexto, podemos observar uma adaptação mais efetiva e até mesmo produtiva inserida nessa comunicação digital, o que a torna muito mais proveitosa, já que eles não se limitam ao plágio ou mesmo a uma personificação fictícia, mesmo que compartilhem de fantasias ou brincadeiras. Nesse caso, isso significa que essa geração, que praticamente já nasceu dedilhando os teclados de um computador, mostra-se exatamente como parece ser; já em contrapartida os mais velhos buscam inserir conceitos abstratos em sua concretude existencial. Trocando em miúdos, gostam mesmo é de aparecer. E aqui eu preciso concordar com a minha filha quando diz que muitas pessoas costumam dar um crédito real a fatídica pergunta do facebook, “No que você está pensando?”, como se estivessem estiradas no divã de um analista qualquer, compartilhando com ele suas insatisfações e frustrações em tempo real. Assim esses sujeitos vão postando tudo o que lhes vêm à cabeça, sem medir as consequências. Como a vida cotidiana, principalmente a urbana, costuma ser estressante para todos, devido à correria, falta de trabalho, dinheiro, amor, solidariedade, segurança, e também devido ao excesso de expectativas que colocamos em cima de determinadas pessoas, as decepções são praticamente certas, assim o “Facenstein” passa também a ser usado como uma ferramenta de válvula de escape, tornando-se um lugar comum a todos que estão solitários, descontentes, apaixonados... E as páginas viram um diário virtual em tempo real, onde a intenção é não somente desabafar, mas o envio de recados indiretos ou direcionados aos seus desafetos: chefes, colegas de trabalho, amigos, vizinhos, parentes... Contudo é bom lembrar que essa “metralhadora giratória” nem sempre atinge o alvo, e o tiro pode sair pela culatra. Desse modo um amigo virtual pode passar facilmente a um inimigo real.

Então, só para recordar, se você escolheu adicionar alguém, sem ao menos conhecê-lo de fato e não consegue conviver com suas ideias, fotos... cancele sua assinatura, simplesmente. Não dê desenvolvimento ao Facenstein que você mesmo ajudou a criar...
Se gostou do texto por favor não deixe de curtir, comentar ou compartilhar, aqui ou no meu Facenstein!
LUZ E PAZ!