segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Os seios que alimentam

O olhar dele para ela é de encantamento. Lindo!
     
     Minha abordagem nesse texto vem reforçar aquilo que acredito ser o grande mal da humanidade: a ignorância. É do conhecimento de todos que  pertencemos por definição biológica a classe dos mamíferos: animais que mamam. No entanto, muitos humanos, que já foram devidamente desmamados, não aceitam que mulheres possam amamentar em locais públicos, nem que postem imagens desse momento sublime da vida delas em mídias sociais, sem com isso remeter a elas todo tipo de ofensas. Um ato absurdo e covarde! Algo que deveria ser considerado natural, afinal todos querem mostrar o seu melhor momento em fotos, desperta a ira de quem não consegue esconder sua perversidade e depravação. E que momento pode ser mais importante para uma mãe do que aquele em que ela se doa por inteiro àquele a quem ela carregou por tanto tempo em seu ventre? Mas inacreditavelmente isso choca os mamíferos, ditos racionais. Dá para acreditar nisso? As pessoas aplaudem, durante o desfile de carnaval, escolas de samba repletas de passistas completamente nuas desfilando descontraidamente em meio à multidão pela avenida; as praias estão abarrotadas de mulheres seminuas, usando seus minúsculos trajes de banho. Isso pode e a maioria aprova. Entretanto, como sugerem alguns, uma mulher em seu momento mais sagrado não deveria deixar seus seios à mostra. Eis o contrassenso.
Eu só vejo amor e nada mais que isso.
        Ainda que haja um consenso universal inquestionável quanto aos benefícios do aleitamento materno para um recém-nascido, algumas pessoas, do alto de sua inabalável ignorância, desejam impor às lactantes à condição de se camuflarem para só assim dar de mamar ao seu lactente. Esse fato se caracteriza pelo retardo social que representa nossa sociedade, ignorante, hipócrita e contraditória.  
Precisamos aprender a conviver em sociedade
        Mas no que diz respeito à cultura indígena, na maioria das etnias espalhadas pelo planeta, a amamentação é o processo principal onde a vida da criança só se inicia após o primeiro gole do leite da mãe. Diante dessa premissa o fotógrafo Alexander Gusov registrou o encontro de sua esposa Sasha com mulheres da tribo himba, na Namíbia em 2003, quando elas tocam em seu seio. Ele contou, na ocasião, que entrevistou uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres não cobrem os seios. Ela revelou a ele que as índias dessa tribo estão sempre amamentando seus bebês. E quando a antropóloga lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados pelos seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Riram tanto que desabaram no chão. “Quer dizer que os homens agem como bebês?”, questionaram as índias. Agora imagine você se elas soubessem que em muitas sociedades, ditas civilizadas, são impostas condições para que uma mãe possa amamentar seu filho, sendo a camuflagem uma delas. O fato é tão absurdo que fica a pergunta: será que vamos precisar de uma Lei que venha garantir esse direito tão básico quanto à própria vida?
      Recentemente pude observar algumas mulheres e seus bebês, enquanto elas aguardavam consulta com o pediatra. Duas delas estavam amamentando, outra oferecia à criança uma mamadeira; frustrada esta última contou às demais que devido a um problema nos seios não tinha conseguido amamentar. Foi então que “entendi” a histeria contra esse processo tão natural quanto à própria criação. Não é o ato que provoca o desconforto nas pessoas mal resolvidas com sua sexualidade, mas a beleza da embalagem da “lactação”. É isso mesmo. As duas lactantes tinham idades distintas. Uma muito jovem, com seus belos seios; já a outra era praticamente uma senhora. Visivelmente constrangida a mais jovem, uma moça muito bonita, ao perceber os olhares curiosos de um homem e da mulher sisuda que o acompanhava, cobriu o rosto da criança e o seio com um pano branco, enquanto a outra senhora, já de certa idade, continuou amamentando sem chamar a atenção. Assim concluí que as mulheres tanto quanto os homens atribuem aos seios o poder da erotização e da sedução, em qualquer circunstância. Por isso aqui cabe a frase de François La Rochefoucauld A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.” Para essas pessoas a amamentação não deixa de ser uma provocação da libido. Por isso elas preferem o isolamento da mãe e do bebê, mesmo que a pobre criança esteja se esgoelando de fome e a mãe não tenha um lugar apropriado para se “esconder” do assédio "sexual" velado e doentio de quem não consegue dissociar o erotismo do sagrado. O problema é que o mal está nos olhos de quem vê. Como diria a saudosa personagem da Escolinha do Professor Raimundo, Dona Bela, “Eles só pensam... naquilo”.
Aonde está a depravação nisso?
      Dentro desse contexto, os adultos desmamados precisam rever seus conceitos e procurar ajuda terapêutica, visto que uma mulher que amamenta está cumprindo seu papel perante à natureza, já que se conhece o valor atribuído ao leite materno e os predicativos da amamentação como fenômeno biológico e suas inúmeras virtudes como fator de desenvolvimento afetivo entre uma fêmea e sua cria. O que não é normal é que uma mulher, coagida, tenha que se esconder para amamentar. Que outro mamífero faz isso, que não seja para escapar de uma presa? Será que as fêmeas humanas ao oferecerem seus seios como fonte de alimento aos seus filhos podem se tornar presas?
Ela continua sua jornada enquanto amamenta 
Todavia, a maioria das mulheres concorda que essa é a fase mais linda de uma fêmea humana, é quando ela estabelece um vínculo de amor profundo com aquela criaturinha que será para sempre a coisa mais importante na sua vida. No entanto, este fato onde a mulher passa por humilhação demonstra que as dificuldades encontradas para manutenção da prática da amamentação é um problema de uma sociedade desajustada moralmente. Portanto, está mais do que na hora de os órgãos governamentais, organizações não governamentais e, principalmente, profissionais da área da saúde, promoverem campanhas que visem esclarecer de forma efetiva a inserção do exercício de amamentar como uma forma natural dos mamíferos. E aqui cabe ressaltar que nesse caso “Não há outro pecado além da estupidez.” Oscar Wilde.  
Quem somos nós?

     Diante desses transtornos à amamentação, fica evidente que para certas pessoas os valores foram invertidos e subvertidos e que é preciso que toda a sociedade interprete o aleitamento materno como uma condição normal a todos os mamíferos, como fator de um movimento natural da espécie, qualquer coisa, além disso, é desvio de conduta daquele que observa uma fêmea alimentando sua cria e sente-se afrontado. E não me venha com a velha máxima de que tudo se dá em defesa da moral e dos bons costumes porque muitas vezes Os costumes são a hipocrisia de uma nação.” Honoré de Balzac


    


sábado, 28 de novembro de 2015

A crueldade nos transforma no único animal a temer


     Diante de uma série de acontecimentos ocorridos nos últimos tempos, envolvendo maus tratos aos animais, venho me perguntando continuamente para onde caminha a humanidade? Com que direito tomamos às rédeas da natureza em nossas mãos, definindo de forma sádica o destino dos outros seres que habitam esse planeta? No entanto, para a maioria das pessoas a única maldade que realmente deve ser levada em consideração é aquela praticada contra os próprios seres humanos, os únicos que entendem como sendo seus semelhantes, o restante nasceu para morrer, então como estamos, supostamente, no topo da cadeia alimentar, - que estamos fazendo questão de desequilibrar com a nossa falta de bom-senso -, não importa o quanto eles possam sofrer, desde que suas mortes tenham um propósito humano ou desumano, tanto faz, pois são considerados inferiores mesmo. Dessa forma são abatidos diariamente para satisfazer, sob os mais variados pretextos, as necessidades de consumo do homem e suas frivolidades, sendo eles: cachorros, gatos, raposas, coelhos, chinchilas, jacarés, baleias, golfinhos, tubarões, cobras, gado, cavalos, jumentos, javalis, elefantes, rinocerontes, tartarugas, aves... Não basta matar para saciar a fome, é preciso abater para atender as futilidades exigidas pela vaidade, que pode ser considerada como “um princípio de corrupção”, como já disse Machado de Assis, escritor brasileiro. Portanto podemos concluir que A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana. Charles Darwin, naturalista britânico.
Adicionar legenda
     Para piorar esse quadro caótico o mundo das pseudo-celebridades contribui na medida que atiça e incentiva esse mercado carniceiro. As maiores responsáveis por essa monstruosidade são as mulheres ditas “famosas” que fazem uso de roupas de peles de animais, como a Lady Gaga, a Rihanna, entre outras. Sendo que a cantora Rihanna, assim como a personagem Cruela do desenho animado, desejou ter uma vestimenta confeccionada com pele de animal. Ela encomendou um vestido de pele de raposa e fios de ouro, feito por um estilista chinês que, segundo eu imagino, deve ser um grande apreciador de carne de cachorro. Porém, ela não está sozinha, muitas outras personalidades famosas adoram desfilar suas onerosas roupas para entretenimento e ostentação, mesmo que isso signifique o preço de uma vida, ou de várias. Mas o que para muitos pode ser considerado um luxo, eu classifico como lixo: já que literalmente foi feito com as “sobras” de uma criatura indefesa, que muito deve ter sofrido. O que me conforta é saber que “Chegará o tempo em que o homem conhecerá o íntimo de um animal e nesse dia todo crime contra um animal será um crime contra a humanidade.” Leonardo da Vinci, polímata italiano.  
     Onde está o homem moderno mesmo? Qual a diferença entre nós e os homens das cavernas? Eles não matavam para se exibir. Suas necessidades eram reais, matavam pela própria sobrevivência. Agora “arrastar animais mortos” dissimuladamente em nome de uma pseudo-moda é demais para a minha compreensão. Notem que mesmo relatando a imensa maldade praticada diariamente contra os animais, não vou aqui me ater àquelas outras criaturas das trevas que enterram animais vivos, jogam óleo quente, arrastam pelas ruas, porque essas pessoas são dementes e não há conscientização possível para elas, a não ser a lei do retorno, mas isso não é conosco é com a lei dos homens, quando estes são identificados, e com Deus.
    Não sou hipócrita, entendo que somos uma espécie carnívora, por natureza. Mas por que estamos incluindo mais “mortes” no nosso cardápio diário que por si só já é horripilante? Também me causa estarrecimento perceber que a matança de determinados animais causa prazer em muitos seres humanos, como a caça por exemplo. Onde está gozo nisso? "Eu sou a favor dos direitos animais bem como dos direitos humanos. Essa é a proposta de um ser humano integral." Abraham Lincoln, ex-presidente e político estadunidense. Portanto, o que de fato repúdio é a forma cruel como esses bichos são mortos; o processo doloroso a que são submetidos, antes que venham morrer, faz com que eu me sinta a mais impotente das criaturas, por não conseguir protegê-los dessa monstruosidade arquitetada por seres que se consideram racionais. Há um enorme abismo moral entre matar por sobrevivência e matar pelo simples prazer do paladar ou por arrogância. E vale todo tipo de justificativa para essa arbitrariedade. Não vou aqui descrever tais fatos porque sinceramente não tenho forças para tanto, e quem tiver maior interesse que faça sua própria pesquisa. Sinceramente acredito que “Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada.” Anatole France, escritor francês.
     Na verdade só estou escrevendo sobre esse acontecimento bárbaro porque acredito que somente a conscientização singular de cada um pode mudar esse cenário infernal. Porém confesso que faço isso com o coração palpitando de revolta e dor. Quem já não ouviu falar no tal foie gras, essa comida francesa, feita com fígado gordo de ganso e pato, que para chegar ao ponto desejado, o pobre animal precisa comer até não suportar mais. Tudo para que alguns imbecis possam saborear algo que provocou tanto sofrimento. Que mundo é esse que esfola um animal vivo para retirar-lhe o couro com maior facilidade e garantir assim a qualidade da sua pele? Assim fazem com os cachorros, vacas, porcos, gatos, focas, tubarões, mundo afora. Uma técnica apreciada pelos devotos do dito “couro amaciado”. E quanto ao uso de penas de aves em eventos festivos? E o consumo de carne de vitela? E a retirada do marfim dos elefantes e do chifre de rinoceronte, com o propósito de ornamentar objetos e fazer infusões afrodisíacas ou usar como perfumes e cosméticos, respectivamente. Você já parou para pensar que Os animais que você come não são aqueles que devoram outros, você não come as bestas carnívoras, você as toma como padrão. Você só sente fome pelas criaturas doces e gentis que não ferem ninguém, que o seguem, o servem, e que são devoradas por você como recompensa de seus serviços.” Jean-Jacques Rousseau, filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço 
      Como o ser humano consegue visualizar sua imagem refletida no espelho sem o mínimo remorso por causar tanto sofrimento? Quem responde é o filósofo alemão Arthur Schopenhau “Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.” Ah, tudo bem, você não se importa não é mesmo? Pois fique você sabendo que existe uma lei universal de causa e efeito, ou seja, tanta barbárie não ficará impune É compreensível que os indivíduos de má índole, que se deleitam com a prática do mal, estejam de tal maneira deformados moralmente, que para eles nada valerá tanto como o prazer sádico de ver os outros sofrerem. No entanto, somos nós que temos a consciência dessa crueldade que temos a obrigação de fazer cessar este processo de selvageria, abusivo e injusto. Assim sendo, se não for pela sua sobrevivência, não consuma produtos que possam impor tanto sofrimento aos animais. Pesquise sobre o que você está comendo. Se o foie gras causa agonia as pobres aves, despreze-o, existem outras opções de alimento. Se a tão deliciosa Nutella - assim como vários outros produtos - que é feita à base de óleo de palma, árvore que está causando a destruição do habitat dos orangotangos e dezenas de outros animais nas ilhas da Indonésia – Sumatra e Bornéo - devido à imensa procura pelo produto, já que houve nesses locais uma grande devastação da mata ciliar que foram substituídas pela plantação dessas árvores que invadem a África Ocidental pelas mãos de grandes corporações chinesas, arrasando agora o habitat dos gorilas, chimpanzés e babuínos, deixe de consumir este produto, ou faça substituição por algo que seja ecologicamente sustentável. Nós temos a força e a opção, não somos escravos do paladar. Muitos afirmam que não abrem mão do prazer de provar comidas exóticas e saborosas. E se a carne humana  fosse apreciada por ser a melhor dentre todas as iguarias, algo difícil de resistir, você se submeteria a experimentar? Você mataria por isso? Não!? Isso talvez porque você saiba que o prato principal um dia poderia ser você. Ah, entendi, você considera essa hipótese um absurdo, algo insano, reprovável, uma verdadeira blasfêmia. Ótimo! Os animais têm os mesmos direitos que os seres humanos. Esse planeta é tão nosso quanto deles, por isso ensine seus filhos desde cedo porque “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.” Arthur Schopenhauer, filósofo alemão. Pássaros foram feitos para voar, não para ficar engaiolados, rodeios são divertimentos bárbaros e impróprios para Nações civilizadas. Animais merecem respeito e amor. Impor sofrimento a eles é inadmissível. E saiba que cada vez que um animal entra em extinção, um pouco de nós desaparece com ele. Não aceite calado os maus tratados impostos aos nossos semelhantes. Ao ver um animal ser maltratado, não tenha medo de se expor: grite, exija respeito. Vamos mudar esse mundo para melhor, pois “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados.” Mahatma Gandhi, líder pacifista indiano que lutou pela independência da Índia e pela paz entre hindus e muçulmanos. 
Se você se identificou com esse texto e concorda com o que está escrito nele repasse para os seus amigos, colegas, parentes, conhecidos... Façamos uma corrente do bem em prol daqueles que não podem se defender de tanta maldade.



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sem liberdade estamos fadados à loucura

       É com um misto de incredulidade e decepção que vejo a todo instante nas redes sociais as pessoas se digladiando com a intenção de medir qual das duas tragédias merece mais atenção, se a ocorrida em Mariana, Minas Gerais, ou a de Paris. Quanta bobagem! Os dois acontecimentos são dois dramas distintos, e igualmente importantes, pois ambos destacam a ignorância humana e a falta de amor ao próximo, e que cada um, de forma singular, possa se identificar mais com um do que com o outro ou com os dois; isso se chama liberdade de escolha. No entanto, não vou aqui me distender falando das duas tragédias porque creio que praticamente tudo já foi dito. Apesar dos muitos absurdos que tenho lido nesses últimos dias, denotando que a maioria não tem a mínima ideia sobre as razões pelas quais escolheu um dos dois acidentes para “sofrer mais”, embora isso tenha seu lado positivo: evidencia que somos livres para fazermos nossas escolhas, e de acordo com elas expressar nossas opiniões, de forma correta ou equivocada, de acordo com o ponto de vista singular de cada um; e é sobre isso que venho aqui discorrer: o direito à liberdade de expressão, direito de vivermos como quiser, sem com isso provocar nenhum um dolo ao outro. Isto é o que se espera de um mundo civilizado e contemporâneo, onde todos tenham seus direitos civis assegurados. Isso é democracia.
     
       A tragédia de Mariana impactou muito, não só pelo aspecto humano, mas também pelo aspecto ambiental. Assassinamos um rio e toda a vida que havia nele e nos arredores! Isto é horrível! Mas aqui podemos gritar e apontar os culpados, exigir providências dos responsáveis. Mais uma vez podemos dizer que, apesar do horror dessa catástrofe ambiental e social, temos a democracia como base para mudar o que está errado. Já o ocorrido em Paris foi uma tentativa de calar o mundo pela imposição de valores que sequer consigo imaginar para a minha vida ou para as pessoas com as quais convivo.  Que mulher quer viver submissa a um homem? Que mulher moderna e inteligente ambiciona ter seus desejos sufocados, receber ordens, se tornar escrava sexual, ser estuprada diariamente, apanhar, usar trajes fechados, ser usada como moeda de troca, não ter o direito de estudar, trabalhar, não ter opinião própria, enfim qual mulher deseja se tornar um zumbi, ou seja: uma morta viva? É isso que o Estado Islâmico pratica diariamente e prega como filosofia religiosa. Pois eu prefiro pegar numa arma e lutar até a morte ao deixar que um bando de doente mental, trogloditas, retrógrados, imbecis de posses de todo tipo de armamentos, venham ditar princípios e comportamentos e acabarem com aquilo pelo qual tanto lutamos: nossa democracia e liberdade. 

Há séculos, batalhamos por um mundo igualitário, é certo que temos avançado a passos de tartaruga, mas estamos caminhando para que todos, eu disse todos, tenham os mesmos direitos. Nós mulheres, já passamos por tantas humilhações perante esse mundo machista e sexista; fomos extorquidas de exercer nossos direitos civis, e somente agora começamos e vislumbrar mil possibilidades e a conquistar o espaço que é nosso por direito, como seres humanos. E assim como nós o mesmo aconteceu aos homossexuais, negros, judeus, deficientes físicos. Sofremos tantos abusos em decorrência do preconceito, da discriminação de gênero e raça, e quando penso que ainda há tanto por conquistar, vem um grupo radical, atrelado a um passado de horrores e punições, querendo implementar pela força uma forma de viver (se é que podemos chamar isso de vida) baseado em leis ultrapassadas, que não contribuem minimamente para o desenvolvimento da humanidade. Criaturas cruéis, imbecis que, de posses de todo tipo de armamento, tentam ditar princípios e comportamentos, com o intuito de propagar um estilo de vida permeado pelo uso da força e violência e por ideias radicais. Não, não podemos deixar que eles sequer sonhem com tal possibilidade. Somos todos iguais e livres! Precisamos caminhar para uma elevação espiritual e social, e qualquer coisa que se oponha a isso se chama loucura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie Hebdo

Eles não reconhecem o poder da argumentação
        Eis aqui uma questão que parece, hoje, estar dividindo o mundo. Ou você está a favor ou contra Charlie Hebdo. Fato que se deve a esse acontecimento absurdo ocorrido na França, onde 12 pessoas morreram devido a represália feita por extremistas a publicação de um cartoon, com a imagem de Maomé, num periódico daquele país. A intenção aqui não é questionar sobre a legitimidade dada à liberdade de expressão, mas tentar entender porque algumas linhas mal traçadas publicadas num jornal, que servirá certamente de embrulho, no dia seguinte, após a sua publicação, pode servir de motivo para que atos bárbaros e insanos fossem cometidos. 
    Ao observarmos acontecimentos tão bizarros, podemos concluir que esses terroristas são simples adoradores de ancestrais. Ou seja, desconhecem qualquer traço de civilidade. Falar em democracia, direitos iguais...  significa o mesmo que atirar pérolas aos porcos, eles simplesmente vivem sob total alienação. Suas atitudes evidenciam o machismo, sexismo, misoginia, racismo, enfim todo tipo de intolerância. Esse é o futuro que queremos? 
            Este refluxo traz à tona, mesmo em dias ditos modernos, o que o homem tem de pior: a ignorância, essa famigerada mãe da intolerância, que leva estes mesmos idiotas a reagirem de forma absolutamente desproporcional - como foi o caso do atentado ocorrido em Paris -, diante de uma sátira, delineada por um simples lápis. 
            Portanto, diante das evidências podemos supor que grupos isolados, com esse grau de atraso moral e social, miram nos países livres para expurgar seus próprios fracassos. Eles não reconhecem o raciocínio legítimo, o dom da palavra, muito menos o poder da argumentação. Assim eram os trogloditas: homens primitivos, grosseiros, sem nenhuma civilidade..., por isso desapareceram, porque o mundo precisa de gente que saiba amar, respeitar, dialogar...
Onde está a fé nesse ato covarde e insano?
Contudo, entendo que o atentado terrorista ocorrido na França possa ser um prenúncio de algo ainda muito maior e mais aterrorizante. Trogloditas escondidos atrás de capuzes pretos, pregando contra, mulheres, judeus, gays... e a própria liberdade. E se medidas eficazes não forem tomadas, em breve, todas as nações democráticas estarão sob a mesma ameaça. Atraso e ódio são o que esses grupos de extremistas desejam disseminar, mas o alvo principal a ser atingido é a própria democracia, e todo o conceito que vem junto com ela.
Portanto, podemos supor que se valendo de um arremedo ideológico e escuso embasamento religioso, esses extremistas usam como pretexto traços feitos a lápis, para cometerem o maior dos pecados: matar. Onde está a fé nisso? Desde quando uma religião prega o ódio e a intolerância, dessa maneira? A quem eles servem, efetivamente, senão aos seus próprios interesses?  Quem tem permissão para matar em nome de Deus? 
O que esses abomináveis homens das cavernas precisam entender é que não é fazendo desse planeta um inferno para os seus semelhantes, que encontrarão o paraíso celeste. Isso não faz sentido! Entretanto, na contramão desses atos, em nome do islamismo, a maioria dos líderes muçulmanos, afirma que o Islã prega  uma doutrina de fé onde o princípio a ser adotado deve ser o amor, a paz e a compreensão. Então cabe a pergunta: a quem esses radicais assassinos seguem? Aos seus ancestrais trogloditas cruéis e hipócritas.
Diante dos fatos não há como negar que esses marginais disfarçados de devotos de Maomé, não creem em nada, não seguem religião alguma. Somente se infiltram, como células cancerosas num organismo, a fim de destruir tudo, ainda que com isso saibam que no final não restará nada. Pois com a morte, até mesmo elas morrem. E aqui me ocorre o mais medonho dos círculos de Dante Alighieri, que é onde espero que esses extremistas sejam enviados.
 O que esses adoradores de ancestrais deveriam conhecer é a sábia frase do filósofo Francis Bacon, “O fanático não quer, o idiota não pode, e o covarde não ousa pensar.”
Enquanto isso a humanidade segue sua trajetória em busca de uma acentuada evolução, e não deve permitir que extremistas possa cercear o seu essencial desenvolvimento. E eu arriscaria acrescentar que esse é o maior perigo de fato para a humanidade, já que “O fanatismo é a única forma de vontade que pode ser incutida nos fracos e nos tímidos.” Friedrich Nietzsche.
E, em nome daqueles que, no passado, contra tudo e todos, ousaram afirmar que a Terra é redonda e que gira em torno do sol, assim como tantos outros que se arriscaram com intuito de só dizer a verdade -, mesmo correndo o risco de ser executados, nós devemos defender o direito à liberdade de expressão. Obviamente se houver excessos que os tribunais sejam devidamente utilizados para julgar os abusos. Isso é democracia, civilidade, o mais é só retrocesso.   Diante desse contexto podemos afirmar que a palavra é o único fio condutor que pode instigar um indivíduo ao combate no campo da argumentação.  “O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros.” Porém, “Tão cegos são os homens, que chegam a gloriar-se da própria cegueira!" Santo Agostinho.
      Adverso a essa premissa é a certeza do predomínio da estupidez e do anacronismo.  “Ignorar a própria ignorância é a doença do ignorante.” Filósofo e professor estadunidense, Amos Bronson Alcot. Portanto é preciso, sim, hastear uma bandeira contra o fundamentalismo religioso, que de forma hipócrita tenta impor uma estagnação mental, o que pode ser desastroso para o futuro da humanidade.
Portanto fica determinado que a existência de Deus nessa trama misteriosa do mundo só faz sentido se for para disseminar uma evolução intelectual e espiritual, de forma justa e igualitária. Pois ninguém está acima do bem e do mal, e homens e animais tem o mesmo direito a essa Terra. Je suis Charlie Hebdo, porque eu pretendo continuar sendo livre... 




segunda-feira, 13 de maio de 2013

Toda nudez será respeitada


É estranho que, mesmo depois de séculos de suposta evolução, o homem ainda não tenha aprendido ou até mesmo aceitado seu próprio corpo, quando ainda, em tempos ditos modernos, se abala diante da própria nudez, seja por admiração ou desprezo. É provável que a causa disso seja, principalmente para os cristãos, a passagem bíblica, cujo capítulo, talvez, mais instigante esteja justamente na narrativa do Pecado Original, que impõe sobre o primeiro pecador, Adão, o conhecimento de sua própria nudez, como forma de castigo por Deus, por seu ato de desobediência, por ter ele ousado comer o fruto proibido. Foge-me, entretanto, o raciocínio lógico quando penso que sendo seu Criador, porque Ele se preocuparia com algo tão natural: a condição natural da sua criatura? A verdade é que nem mesmo a mitologia aborda esse tema de forma “confortável”, assim Homero, em sua esplendorosa Odisséia, ao relatar o fato de que seu personagem mitológico, Ulisses, após o naufrágio, constrange-se por sua nudez, diante da princesa Nausícaa. Então, extremamente desconfortável o rei de Ítaca tenta esconder seu órgão sexual com arbustos. Mais de dois milênios depois e nada mudou. Provavelmente o destemido herói, 2500 anos depois, sentir-se-ia da mesma maneira: envergonhado e desamparado ao se defrontar em situação semelhante. No entanto, não podemos esquecer que em algum momento do nosso passado caminhávamos sobre a Terra naturalmente livres, e que os gregos no século V a.C organizavam suas competições esportivas completamente nus. A estátua de Sátiro, proveniente do século II a.C  evidencia um homem dormindo, talvez na rua ou numa praça, sem roupa, atitude que deveria ser considerada comum para a época. Contudo, a sociedade, principalmente a ocidental, ainda nos dias atuais, transforma esse estado natural do corpo humano na mais absurda polêmica. 

     Todavia, há quem tire algum tipo de proveito – para o bem ou para o mal - dessa 
concepção libidinosa que a nudez causa à grande maioria dos terráqueos – tirando aqui os animais irracionais, que são assumidamente mais resolvidos diante de sua própria anatomia. Um bom exemplo dessa teoria está no grupo Femen, movimento feminista que nasceu na Ucrânia em 2008, e hoje já se encontra internacionalizado. Ironicamente essa organização, que expõe geralmente os seios de suas ativistas, tem como objetivo o extermínio de práticas como turismo e exploração sexual de adultos e crianças, sexismo e todo tipo de patriarcado.  E sabe por que elas conseguem chamar a atenção? Muito simples: elas sabem que a exposição do corpo feminino, ainda hoje, tem “poder” de levar à discussão, causando controvérsias, ou seja, ninguém consegue ficar indiferente a inusitada situação, o que para o grupo torna-se positivo, assim talvez a causa pela qual elas lutam seja inserida no contexto social, ganhando adeptos. Mas nem tudo são flores.
      Aproveitando-se dessa “neurose coletiva” arraigada em praticamente toda a sociedade, já que a nudez está vinculada ao conceito abstrato de luxúria, muitas pessoas se valem desse imaginário pluralista para fazer valer seus atributos físicos, e, consequentemente, estimulam a apologia ao corpo perfeito. Quem perde? Toda a sociedade. Não existem corpos perfeitos, existem estágios da vida onde os corpos apresentam maior frescor, ninguém chega à velhice com um corpo de jovem. E aqui a coisa complica ainda mais, mas não vou me ater, nesse momento nessa questão. Minha reflexão está muito mais voltada na tentativa de entender o porquê dessa paranoia que leva muitas pessoas a buscar, a qualquer preço, uma condição física idealizada, tornando-se escravas dessa cultura industrial que fomenta a estética da perfeição. E tudo seria até normal, não fossem as inúmeras barbáries cometidas em nome dessa profana adoração. Quem é lindo e jovem sofre porque sabe que um dia deixará de ser e inevitavelmente será substituído por outro, já quem não obteve da mãe natureza a mesma generosidade no quesito beleza ou mesmo já não é tão jovem, sente-se injustiçado por sua “triste” condição humana. Inseridos, desse modo, numa sociedade na qual o processo de envelhecimento é rejeitado, muitas pessoas atiram-se na vala comum quando decidem adotar um estilo jovial de viver, mesmo que isso represente sofrimento e abnegação, ao submeterem-se a tratamentos estéticos torturantes e dietas malucas, que mais provocam malefícios do que efetivamente bem estar físico e emocional. Contudo é bom lembrar que todos caminham para o mesmo destino: a finitude inerente a todo mortal. Então porque não adotar uma atitude mais leve no modo de viver, sem que haja, com isso, tantas cobranças ou julgamentos, onde cada um seja livre para fazer suas próprias escolhas e o respeito comece pelo nosso corpo, tão complexo e sagrado, que jamais deveria ser profanado ou somente cobiçado, mas ser dignamente referenciado como portador de uma alma, sendo desnecessário que haja sobre o corpo qualquer comentário conspurcado.


domingo, 10 de março de 2013

Enfim sós

D
epois de retornar da Europa, após um período de férias, uma amiga muito querida avisou-me que irá se casar novamente, em julho próximo. O cenário não poderia ser mais romântico, na região francesa da Alsácia, há poucos quilômetros da fronteira com a Alemanha. Será a quinta vez que ela sucumbirá ao “fetiche” do casamento. Você deve estar se perguntando, mas o que há de errado nisso? Nada. A não ser o fato de que ela passa mais tempo na estrada do que em casa, pois a rotina lhe parece um verdadeiro martírio. Desde que nos conhecemos, quando fazíamos faculdade juntas, ela já era uma adepta do “voo livre”. Sua alma cigana a impede de fincar raízes em um determinado lugar ou mesmo se condicionar as frivolidades do parceiro, por isso mesmo na menor das contrariedades levanta “acampamento”, já que agora ficou mais fácil, pois está aposentada, e segue sua vida de retirante, sem ter que dar satisfação a ninguém. Todavia, nem tudo são flores, o caminho por vezes torna-se espinhoso, assim que a saudade da família aperta ou a solidão ecoa em seu âmago ela corre para o aeroporto mais próximo de onde estiver, rumo aos braços dos filhos, netos e amigos queridos. Sem contar o fato de que não raras vezes ela precisou trilhar pelas estradas da vida de forma solitária. E aqui está o motivo pelo qual minha amiga sempre decide juntar as escovas de dente: detesta viajar sozinha e as amigas ou os seus familiares nem sempre podem acompanhá-la. Por isso essa compulsão pelo casamento que, segundo sua própria definição, deve ser eterno enquanto durar a lua de mel ou a viagem. Porém, há quem veja nessa atitude singular certa futilidade, já que seria um mero acordo pré-nupcial de turismo e logística. Contudo, aqui não se pretende julgar ninguém, pois como já dizia a minha vó “o que é de gosto é regalo da vida”. Também não pretendo nesse espaço contar a vida particular dessa enigmática, maravilhosa e pragmática pessoa. Ela está feliz e isso é o que realmente importa. 
Essa história aqui narrada, até então, só serviu para abrir caminho para um assunto que nos últimos tempos têm despertado a minha curiosidade: casamento e separação. Mas afinal o que querem homens e mulheres? Se todos os outros relacionamentos foram meros enganos, como afirma minha amiga, como saber se esse não será mais um dolo? Não há como saber.


É provável que nunca na história da humanidade tantos relacionamentos tenham fracassado de maneira tão rápida, o que não significa que não tenha dado certo. Mas ainda que muitos digam que o casamento é uma instituição falida, paradoxalmente ele parece não tomar conhecimento disso, e, firme e forte, segue arrastando adeptos pelo mundo todo. Assim, somos instigados, mais cedo ou mais tarde, a entrar numa outra dimensão, onde a ordem dita que precisamos aprender a conviver com o outro, aceitando seus defeitos e aprimorando os nossos sentidos, para que seja possível uma troca efetiva nessa relação a dois, onde não será mais possível conjugar o verbo na primeira pessoa do singular.
O amor rima com dor
Na Provença, do século 12, os trovadores tinham uma apreciação complexa do amor romântico: a dor gerada pela visão da figura graciosa, a insônia provocada pela perspectiva do encontro, o poder de algumas poucas palavras ou olhares para determinar o estado de espírito de alguém. Nove séculos depois, apesar de alguns avanços, continuamos com a mesma sensação, sendo que a maioria sonha poder um dia encontrar a sua “tampa da panela”, porém, apesar dos esforços, às vezes mais de um lado do que do outro, essas peças descobrem que não foram feitas sob medida, e por isso mesmo saem à procura de outra, cujo encaixe seja perfeito e as complete de forma plena. Este é um risco calculável, mas não tem jeito, não há fórmula que garanta uma felicidade eterna, e a velha máxima de que “seja eterno enquanto dure” ainda parece a coisa mais sensata a fazer quando o ajuste não é mais possível. O que fica difícil de entender é o motivo que leva muitas pessoas a obrigar o parceiro(a) a continuar a relação, mesmo quando o amor, o respeito, a admiração, a atração e a cumplicidade deixam de existir. Essa relutância está bem exemplificada na letra da música, cujo título sugestivo chamado Pedacinhos, composta por Guilherme Arantes, elucida o que sobra da relação quando há uma conformidade e falta de auto estima... Pra que ficar juntando os pedacinhos do amor que se acabou. Nada vai colar. Nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo e os remendos pegam mal, logo vão quebrar...


Pegando carona nessa na linda composição podemos dizer que continuar um relacionamento baseado em mentiras ou sentimentos retroativos é um contrassenso, já que segundo os especialistas a paixão dura no máximo quatro anos - exceto aquela considerada platônica.  Assim, o desafio é saber transformar aquilo que sobra da euforia dos primeiros anos em amor, compreensão, respeito e cumplicidade. Isso tudo, entretanto, parece ter ficado de lado quando a maioria deseja sentir novamente a adrenalina causada pela força da paixão que faz com que a pele fique ruborizada e a temperatura do corpo ascenda, fazendo o coração bater mais rápido e o desejo sexual se tornar mais intenso, além de alterar o estado de consciência dando lugar à euforia.  Sensação que muitos procuram fora de casa. Eis os elementos que homens e mulheres, assim como um vício maldito, tentam manter a qualquer custo sob a égide do casamento. Uma batalha travada diariamente, para que a guerra a sustentar esse sonho de estar constantemente apaixonado seja vencida. E quem já não sentiu uma vontade incontrolável, de após o término da paixão, acabar tudo e dar chance a uma nova história de amor, não sabe a que me refiro. Apesar disso a maioria dos casais ainda tenta, após o fim do período romântico e turbulento, investir no relacionamento, buscando renovar o sentimento com companheirismo e afetuosidade, dando à relação certa estabilidade, canalizando seus sentimentos aos filhos, que sem saber tornam-se a desculpa perfeita, em certos casos, para que o fatídico relacionamento tenha continuidade. Embora essas atitudes nem sempre alcancem o resultado esperado, muitos casais, sem perceberem se “enterram” em nome de uma suposta posição social que o casamento possui dentro da sociedade ou até mesmo para não comprometer o patrimônio conquistado ou mesmo a felicidade dos filhos, ainda que passem a maior parte do tempo entre tapas e beijos, com a esperança de que as coisas possam ser como já fora algum dia. Entender que a relação não precisa ser para sempre talvez seja o caminho para que esta possa durar mais que as nossas próprias expectativas. 
     Contudo não há como negar, as relações ditas estáveis e tradicionais, nos dias atuais, passam por uma crise de “identidade” e apesar dos inúmeros apelos da própria sociedade em prol da união da família, o casamento atravessa por uma turbulência generalizada, expondo a fragilidade humana e a falência das relações conjugais. Não sabemos mais o que buscar no outro e nem o que ele pode esperar de nós. Ser bom já não é o suficiente, para ser feliz o ser humano exige que a sua metade da laranja seja perfeita. E assim como a minha amiga todos fogem da rotina do dia a dia.  Mas não há como fugir do óbvio, os homens com o advento da pílula azul ganharam a liberdade e a garantia de que fora de casa o desempenho sexual estará garantido. Em contrapartida as mulheres se descobriram, e mais cuidadosas exigem do parceiro o mesmo desempenho que teriam com as suas amantes. Com isso, embora as batalhas sejam vencidas ao longo do relacionamento, ganhar a guerra  se tornou bem mais complicado, porque cada um está preocupado com o seu conceito particular de felicidade. Diante disso acredito que seja muito difícil que os nossos filhos possam presenciar ou até mesmo festejar Bodas de Ouro ou mesmo de Prata, pois escolhemos que mais vale grandes emoções, ditas pelos especialistas de monogâmicas sucessivas do que a rotina de uma monogamia desvanecida. Podemos dizer, entretanto, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a sempre a possibilidade de um grande e “eterno” amor nascer após a finitude da paixão, que talvez para alguns poucos felizardos jamais tenha fim. É apostar para ver!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnaval ou bacanal


 
A
 palavra "carnaval" está relacionada à ideia de deleite dos prazeres da carne, arcado pela expressão "carnis valles", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres. E nesse caso, especificamente, precisamos concordar: a tradução é literalmente fidedigna à atual fase da festa brasileira, salvo algumas exceções. Em seu segundo livro de poesias, publicado em 1919, cujo título era Carnaval, Manuel Bandeira escreveu um poema bastante sugestivo chamado Bacanal, nele o poeta já sintetizava de forma explícita o “espírito” carnavalesco daqueles tempos: Quero beber! Cantar asneiras. No esto brutal das bebedeiras. Que e tudo emborca e faz em caco… Evoé Baco!... (continua)”. No entanto, mal sabia ele que outros carnavais, ainda mais “bacanais”, estavam por vir, e o seu prenúncio nunca fizera tanto sentido como agora, cem anos depois, onde os homens se acabam de tanto beber e as mulheres desfilam nuas pelas avenidas dos inúmeros sambódromos espalhados pelos grandes centros do país, formando dessa forma um dueto perfeito, onde a ordem dita que ninguém é de ninguém, e, ao som do tanto faz, o relevante é trocar saliva com o maior número possível de pessoas, enquanto durar a festa. Assim tudo fica resumido a seguinte premissa: no carnaval tudo é permitido e todos os brasileiros são coniventes com esse tipo de divertimento. Mentira.
Nós só precisamos mostrar arte e raça... o mais é resto
     Por isso fica impossível, nos dias atuais, pensar em carnaval sem relacionar a festa à nudez explícita e vulgarizada das muitas mulheres que desfilam nas escolas de samba, nos blocos carnavalescos de rua ou em cima de trios elétricos e aos numerosos litros de cerveja que são consumidos diariamente, durante a grandiosa celebração. É algo assombroso, para não dizer vergonhoso. O bom senso nesse caso passa longe, quando mulheres se expõem, de maneira acintosa, como criaturas atléticas e libidinosas, deixando a impressão de que estamos na era cibernética do sexo, cujas imagens de fêmeas musculosas representam o universo feminino “robotizado” de forma puramente comercial e artificial. Inseridas nesse contexto superficial desfilam bundas e peitos camuflados pela ordem carnavalesca: o poder financeiro, que nesse caso determina o valor do investimento “corpóreo”. Assim temos a ideia de que tudo pode ser negociado, até a compra de um “corpo perfeito” para incitar a pluralidade do desejo masculino. E nesse caso, obviamente, conquista mais quem pode pagar pelos incontáveis tratamentos estéticos, como fez a compulsiva por cirurgias plásticas, Ângela Bismarchi, que segundo dizem sempre compra o posto, assim como outras famosas, de rainha de bateria de várias escolas de samba. Ao que tudo indica, então, samba no pé, carisma e sedução pelos neurônios, está fora de cogitação. A priori fica estabelecido que o carnaval tornou-se um divertimento vazio, cuja imagem, para aqueles que estão de fora, é a da propagação da prostituição e do turismo sexual - impulsionado pelo aumento da chegada de turistas estrangeiros no país e pelo apelo dissoluto da festa. Mas essa leitura do que parece ser uma regra traz mais mazelas do que benefícios aos brasileiros, passando a ideia de que todos compactuam com esse comportamento explícito de vulgaridade, cuja propagação da prostituição, das brigas e do aumento considerável do consumo de bebidas alcoólicas se perpetua em nome da cultura da Nação. Prato cheio para um bacanal. E aqui essa loucura pode ser explicada por Friedrich Nietzsche quando diz que a “Insanidade em indivíduos é algo raro - mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra.”

A proliferação dos mijões deixa o passeio público intransitável
Foliões contribuem para a degradação ambiental. Até quando?
      Esse carnaval de fachada, aclamado e “vendido” no exterior, entretanto, é puro marketing financeiro, para atrair dinheiro de fora. Recursos esses que não são usados apropriadamente para eliminar o rastro de sujeira e depredação deixado pelos foliões, após o fim do feriado festivo. São milhares de produtos, latinhas e garrafas plásticas, principalmente, descartados em locais inapropriados – entupindo bueiros e poluindo os rios, lagos e o fundo do mar -, gerando uma degradação ambiental, fato que caracteriza a festividade como desgraçadamente insustentável. Ponto para o bacanal. Outro fator preponderante é a exalação do mau cheiro que fica impregnado nas vias públicas por causa da combinação de um grande número de pessoas nas ruas e o elevado consumo de bebidas, o que faz alavancar o crescimento exponencial dos “mijões de canto”. Tudo isso somado ao aumento de temperatura causa repúdio naqueles que precisam transitar pela localidade, e onde, mais tarde, são necessários milhares de litros de água para recuperação da limpeza urbana.

O carnaval é uma arte popular, e dispensa apelações
     E você que adora carnaval deve estar se perguntando: ela está sugerindo o fim do carnaval? Não se trata disso. Na verdade eu acredito que está mais que na hora de toda a sociedade e os órgãos competentes se mobilizarem com a finalidade de repensarem uma forma sustentável e digna de recuperação dessa festa popular. Sem os exageros pontuais, hoje cometidos. Se haverá desfiles de mulheres despidas, que seja em ambientes apropriados, e não em vias públicas. Se as pessoas querem beber até cair, problema delas, mas daí a sujar toda a cidade é outra coisa, se decidirem transar, que seja em locais adequados, se precisarem urinar, que o façam de forma civilizada. Aqui não está em discussão a abolição da festa. O que se espera é que o carnaval tome um rumo mais sustentável, com o resgate de certos padrões de comportamento, onde as mulheres não sejam expostas como mercadorias ou quimeras devoradoras de homens. O que se deseja é que uma bandeira de civilidade seja hasteada em prol dessa tão importante festa popular brasileira, que deveria ter como único objetivo a propagação da alegria, permeada pela responsabilidade social, cultural e ambiental. Não podemos continuar compactuando com essa forma promíscua e irresponsável de divulgação do carnaval brasileiro. Não é uma questão de preconceito ou algum tipo de moralismo religioso, mas buscar o bom senso, quiçá o bom gosto, que se perde na exposição apelativa e desnecessária de certas figuras esdrúxulas. Uma forma honrosa de resgatarmos nosso orgulho de cidadãos brasileiros. O Brasil não é só carnaval, futebol e mulher pelada! Nosso país é imenso e lindo, e, dividido por regiões, possui em cada uma delas características particulares, sendo, ainda, detentor da mais linda floresta do mundo. Mesmo que haja disparidades sociais, somos uma Nação permeada pela alegria e solidariedade. Talvez porque sejamos ainda muito jovens em relação ao velho mundo, e não tenhamos atingido a maturidade necessária para um crescimento efetivo, nos falta um pouco de juízo. Mas estamos caminhando rumo à fase adulta, e com esse solo gentil certamente chegaremos à terceira idade dignamente, depois de ter aprendido que nenhum país alcança exponencial respeito exportando conceitos abstratos de divertimento: carnaval, futebol e prostituição. Brasil mostra a tua cara!
A beleza está no gingado, no amor à escola e na fantasia...

* Como o caro leitor pode observar: procurei retratar nessa postagem o melhor do carnaval brasileiro: os desfiles primorosos de algumas escolas de samba, embora não pudesse deixar de colocar a foto dos mijões ou mesmo a imagem que representa um bacanal, na sua origem. As imagens que retratam  o lado obscuro dessa festa popular podem ser encontradas aos milhares na internet, infelizmente... Por isso decidi não fomentar ainda mais essa "vergonha nacional"...




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O beijo da ignorância e da incompetência

O
A dor dos gaúchos evidenciada no seu maior símbolo
 que dizer sobre a tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria, que ainda não tenha sido dito. Mesmo consternada e solidária aos familiares, pois amor de mãe é universal, sinto que os elementos que apontam para os culpados são equivocados. É óbvio que houve negligência, embora a soma dos produtos não altere o resultado, principalmente no que diz respeito a esse caso, foi o conjunto de vários fatores que levaram a esse fatídico acontecimento, principalmente a ignorância dos rapazes da banda; da prefeitura que concedeu o alvará e dos donos da boate que não procuraram fazer daquele local um espaço adequado à prática de divertimento seguro e responsável. Todos, em maior ou menor escala, “pecaram” por desconhecerem regras básicas de segurança: espuma + faíscas = incêndio.  Assim sendo entendo que não somente os donos da boate ou mesmo os integrantes da banda deveriam ser apontados como os únicos culpados ou negligentes. E, ainda como é possível cumprir uma legislação de segurança se ela praticamente inexiste? Onde fica a responsabilidade dos órgãos públicos, cuja obrigação era de somente conceder alvarás de funcionamento a lugares onde o “estopim e pólvora” não poderiam ser armazenados no mesmo recinto? E o que dizer daquele “projeto arquitetônico”, totalmente inapropriado para uma casa noturna, com teto extremamente baixo, corredores estreitos, escadas e uma única saída, o que evidenciava que sair daquele local, com péssima sinalização, dificultaria uma evacuação rápida e segura, dando ao ambiente um aspecto de tenebrosa arapuca. No entanto, somente agora, depois de tantas vidas ceifadas é que o assunto vem à tona. E todos os “especialistas” dão suas opiniões contundentes e definitivas: o lugar era uma verdadeira armadilha, pronta para ser acionada por qualquer um que frequentasse o lugar.  




   Propagação das teóricas penalidades divinas: Outro fator que provoca perplexidade e indignação, diante dessa tragédia é o fato de algumas pessoas fazerem piadas estúpidas com o fato, além de atribuírem à culpa ao acontecido, na boate Kiss, ao prenúncio “diabólico” visualizado num cartaz, a princípio, elaborado pela própria banda, colocado à entrada do estabelecimento, cuja imagem de uma caveira incandescente imitava a função de DJ, com corpos dançando em chamas, ao fundo. Não demorou até os crentes relacionarem o fato a todo tipo de castigo celestial ou até mesmo a algum pacto satânico. Conceito este difundido por pessoas ignorantes que se auto intitulam servas da palavra de Deus, que com isso propagam, nesse momento de tristeza e desolação, a ideia de que ser estudante universitário, alegre, jovem e bonito, e ainda ser amado pela família e amigos, é pecado passível de punição. E para piorar a inveja parece ser o grande motivador  dessas pluralistas manifestações religiosas e das piadas infames, propagadas pela internet, que ganha adeptos muito mais pelo desejo hipócrita de fazer parte, também, desse grupo particular de jovens, que sabe viver, do que por qualquer outra coisa. Dessa maneira a ignorância se aglutina ao movimento desprezível daqueles que, desprovidos de amor próprio ou de amor pelo próximo, torcem pela derrocada do outro, sob o pretexto de que essa é a vontade divina, não esquecendo de que julgar é confortável e coloca os “juízes” numa situação ligeiramente superior ao resto da humanidade.
Contudo, essa maneira de observar os fatos evidencia o que o sujeito leva no coração. Ou seja, a malícia está no olhar daquele que consegue ver perversidade em tudo, e, consequentemente, dá à maldade a elevação que ela não possui, e retira do Bem o crédito da grandeza de união que se estabeleceu entre pessoas que jamais se viram ou se conhecerão, mas que nesse momento de grande dor e tristeza, colocaram-se à disposição para ajudar da maneira como podem e com a finalidade de tentar amenizar o sofrimento de tantas famílias.
 Assim ao olharmos o tal cartaz, onde se avista um jovem, vocalista da banda, ao lado da ilustração, permeada pelo fogo, podemos afirmar que o tal anúncio chamava à celebração à vida. Então considerar essa exaltação como um mau agouro é outra ignorância de quem faz uma interpretação equivocada, sem conhecer o quanto esse elemento é necessário à humanidade, já que o fogo é um dos quatro elementos que regem o planeta, sendo considerado um símbolo sagrado em quase todas as religiões: hinduísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo...
Assim, aceitar essa teoria ridícula de que Deus teria lançado sua ira sobre aquela casa noturna, certamente é a maior blasfêmia que se levanta contra a maior e mais benevolente entidade do universo. Contudo, não se pode negar que esse deve ser o desejo dos idiotas, infelizes e mal amados, que não conseguem lidar com a própria frustração e que se alimentam da esperança de ver pessoas saudáveis e bem resolvidas “barradas” na porta do paraíso, pelo simples fato de que aqui foram felizes.  Acaso está escrito em algum lugar que a alegria deve ser combatida com castigo divino? Caso isso fosse verdade o carnaval, considerado uma festa pagã, com mulheres desfilando nuas, não sofreria muito maior penalização? E quando um templo ou uma igreja pega fogo, levando vários fiéis à morte, isso também pode ser considerado castigo? É inacreditável como o homem gosta de manipular e interpretar as leis, até mesmo a Lei Divina, que, segundo a vontade de certos seres humanos, não pode ser universal muito menos democrática, pois o que serve para condenar uns deve isentar outros. "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém." William ShakespeareNenhum mal pode ser convocado ou incitado por corações alegres e bondosos. Assim como não há cartaz algum nesse mundo capaz de provocar tamanha tragédia. Somente a ignorância e a incompetência podem causar tanta dor e sofrimento.