quarta-feira, 15 de junho de 2016

Plagiadores da loucura

     Durante algum tempo acreditei que os loucos se refugiavam somente em lugares específicos as suas condições mentais, e imbuída do preconceito que habita o senso comum de todos aqueles que se consideram mentalmente sadios demorei para perceber que cada indivíduo, de maneira metafórica, carrega sua cota de loucura. E o meio ao qual estamos inseridos contribui de forma circunstancial para que aos poucos nos tornemos irracionais, talvez para nos possibilitar a convivência em sociedade, pois a maior causa das nossas decepções, enquanto seres humanos, está na nossa própria espécie, e nunca estivemos tão expostos à loucura causada pelo excesso de informações, como agora com o advento da internet, onde as notícias pulsam num compasso acelerado fazendo com que cada um busque se posicionar com certo extremismo entre o certo e o errado, quando passam ao desespero de "gritar" sua razão mesmo que a própria razão a desconheça, sem com isso entender que entre os dois pode haver um meio termo, o razoável. A terra fértil faz brotar, então, vozes enlouquecidas que saem à caça de seus supostos algozes, e nesse caminho sinuoso quem não estiver a favor, certamente estará contra, para o bem ou para o mal. Como já disse o filósofo inglês Thomas Hobbe, “O Homem é o lobo do Homem”, certo de que o estado natural do ser humano é o conflito: a guerra. Séculos se passaram e nada mudou.  Na essência continuamos os mesmos bárbaros, dispostos a confrontar o outro por qualquer bobagem. Fato que demonstra claramente que não sabemos lidar com as discrepâncias de opiniões que surgem nos locais onde somos obrigados a conviver: seja no ambiente real: local de trabalho, escolas, universidades, o próprio ambiente familiar, hospitais, trânsito ou mesmo em ambientes virtuais... Lugares estes onde a pressão exercida sobre a singularidade de cada um pode levar a busca por um refúgio ou a descarregar essa energia de forma agressiva no outro. E essa condição de frustração acelera o processo que compactua e plagia a forma comportamental e perigosa dos indivíduos agirem. E tudo se transforma em ódio, muitas vezes mortal. A agressão é sempre covarde e nesse momento o plágio se dá em forma de cusparada. Pessoas consideradas normais passam a agir de forma insana, quando perdem a capacidade de conversação e lançam saliva no seu oponente. Essa semana uma discussão entre duas adolescentes, teve como "atrativo" principal a troca de salivadas. O motivo do desentendimento era o momento político pelo qual atravessa o país, não sobre garotos, que talvez fosse o esperado para duas jovens se digladiando na rua. Entretanto, essa sanha demonstra a repugnância com que defendem suas ideias, a mesma que fazia com que homens empunhassem suas pistolas a fim de resolverem seus conflitos em duelos. Nada muito racional! Será que entramos na era do duelar com cusparadas?
     Então para quem chegou até aqui, talvez compartilhe da mesma impressão que a minha: estamos perdendo a razão. Porque não considero normal uma divergência de opiniões acabar em duelo salivar. Essa não parece ser a Era da Comunicação, mas uma volta à Idade Média, quando tudo se resolvia a ferro e fogo.  E o pior é que essa deterioração da palavra tem como vetor pessoas ditas racionais, que orbitam um mundo sob uma aparente civilidade. Essa é a questão aflitiva da loucura cotidiana: nunca sabemos de que lado ela está ou até que ponto podemos ser alcançados por ela.
     Já imagino, daqui alguns séculos - isso se até lá não acabarmos com o planeta, com a nossa insanidade -, as pessoas comentando (sic) que no início do século XXI as pessoas duelavam lançando salivas umas nas outras, algo muito moderno para a época, já que até os políticos profanavam com cusparadas o solo da “casa” que juraram honrar. Assim é certo dizer que benditos sejam àqueles que diante de tanta insanidade conseguem manter uma loucura lúcida e benevolente, sem se deixar contaminar pelo plágio ritualístico que empurra a lógica a um abismo onde somente os ridículos são facilmente atraídos.


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sábado, 7 de maio de 2016

Mães, flores e jardins

   

    Por experiência própria no assunto esse deveria ser o tema mais fácil de abordar, mas ao contrário do que possa parecer é muito difícil descrever a peculiar sensação de como ser mãe. Um dos aspectos mais sagrados da natureza, se assim posso dizer, sempre foi a capacidade de gerar filhos, em especial na condição humana. Sempre acreditei que para alcançar êxito nessa função bastaria passar adiante o que havia aprendido com a minha mãe, uma grande amiga e parceira em todos os momentos da minha vida. Uma mulher à frente do seu tempo, que com muita sapiência soube deixar sua “marca” gravada nessa que aqui escreve. Assim, seguindo os seus passos e ensinamentos, me preparei somente para doutrinar. Mal sabia eu que aprenderia muito mais com um filho do que no banco de uma faculdade qualquer. E começo dizendo que, já de início, durante a gravidez, aprendi a valorizar ainda mais a mãe que eu tinha; e para falar a verdade: a minha gestação foi planejada muito mais para dar a alegria de um neto a ela do que pela minha própria vontade, embora eu quisesse muito passar por esta experiência. Contudo, quando a minha filha nasceu compreendi que a maternidade sem amor é um ato puramente mecânico, ou seja, para ser uma verdadeira mãe não é preciso necessariamente parir um filho, precisa sim, eclodir a capacidade de amar, e a finalidade deste sentimento, suponho, é fazer girar a roda da vida em todo o universo, mantendo-o em equilíbrio. 
     Assim ao fazer uma analogia com um lindo jardim podemos dizer, então, que em toda beleza que permeia a natureza materna humana, as mães são as jardineiras e os filhos representam as flores que, em certas ocasiões ferem com os seus espinhos, por serem diferentes entre si  requerem um cuidado adequado nesse território pluralista, mas como todas precisam do calor e de regas frequentes, o amor e a intuição entram como vetores essenciais ao fortalecimento do desenvolvimento individual de cada um deles. No entanto, toda jardineira deve planejar e fazer a manutenção adequada para que o solo seja fecundo e bem cuidado, evitando assim a proliferação de ervas daninhas que afetam a qualidade do que fora plantado. A partir daí percebemos que nem tudo são flores. O trabalho é árduo e contínuo, sem a certeza de um retorno colorido e harmonioso. Porém a maioria das jardineiras segue sua missão com resignação, na esperança de ter contribuído eficazmente para o desenvolvimento da sua prole.
      E assim, sucessivamente, dia após dia, nas alegrias e decepções proporcionadas pela maternidade aprendemos mais do que propriamente ensinamos. Com isso entendi que uma mãe nunca deve trilhar um único caminho, porque retroceder às vezes se faz necessário, por isso é salutar que ela tenha fôlego para percorrer novas trilhas, caso contrário poderá pisotear os próprios passos e incorrer nos mesmos erros.  Porque o desejo, a posse egoísta, o apego vão deformando paulatinamente a personalidade dos filhos, deixando suas marcas, traumas e psicoses, que normalmente serão carregados por uma vida inteira. E como bem disse o escritor e professor brasileiro Henrique Maximiano Coelho Neto “É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais.”
     Entretanto é necessário compreender que uma mãe não é uma mulher à prova de deslizes, e reconhecer o quanto somos vulneráveis pode ser muito mais útil na criação de um filho do que ficar esmurrando faca temendo que ele perceba essa suscetibilidade. Por isso, ao longo do tempo, fui tateando a procura de um interruptor a fim de encontrar a luz que me permitisse enxergar além do olhar materno, pois sempre acreditei que mais do que criar um filho, nós mães temos o compromisso e a obrigação de deixar para o mundo um ser humano evoluído espiritual e intelectualmente. Alguém capaz de discernir entre o certo e o errado. Acredito que essa seja nossa missão e responsabilidade, desde a gestação, quando precisamos escolher até mesmo o que vamos consumir à mesa, para que esta semente se desenvolva de forma saudável.
  Em suma, não basta dar a um filho somente um amor incondicional, é necessário oferecer a ele uma educação alicerçada nos valores primordiais como: respeito pelo próximo, honestidade, humildade, generosidade, dignidade... Atributos esses intrínsecos à essência humana que garantem que uma pessoa seja respeitada, amada e admirada, uma condição crucial para que seja um ser humano feliz, já que esse é o desejo de toda mãe: a felicidade do seu filho. Assim deixo aqui o meu agradecimento especial a minha mãe, que creio estar num lugar cheio de luz. E aproveito para deixar um FELIZ DIA DAS MÃES  para todas as MÃES que não medem esforços diários para deixar ao mundo um ser humano melhor.








quinta-feira, 21 de abril de 2016

Rede de amigos

     Considerado o filósofo da amizade, o grego Epicuro de Samos, afirmou em suas Sentenças Principais que "De todas as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade". E tanto poetas quanto filósofos destacam a importância de cultivarmos os amigos. Por isso preciso dar o braço a torcer e parabenizar o fundador do facebook,  Mark Zuckerberg, pela sua criação. Fato que me proporcionou o entendimento de que a maioria das nossas amizades está ancorada no rasante do rio que permeia nossa vida. Ou seja, nosso conhecimento em relação aos “amigos”, sejam eles virtuais ou reais, é muito superficial. Entretanto, com o advento da internet e, consequentemente do “face”, foi possível conhecê-los um pouco melhor, através daquilo que publicam, compartilham ou curtem. E vem daí o paradoxo ao qual me refiro, essa amizade que muitas vezes cultivamos por anos, décadas, talvez, pode ter sido um equívoco, baseada na ilusão que tínhamos valores semelhantes. Contudo, quando percebemos a ambiguidade no modo de raciocinar do outro e de suas escolhas entram as emblemáticas opções do facebook, nesse turbilhão de intenções: deixar de segui-lo, bloqueá-lo ou excluí-lo, ou, ainda, ignorá-lo nessa simbólica rede de relacionamentos, quase sempre supérfluos. Mas então qual o objetivo de manter alguém tão distinto na sua galeria de “amigos”? Mostrar o quanto é sociável? Talvez para muitas pessoas que não sejam adeptas à rede de relacionamento, isso até seja possível, pois não há um envolvimento diário ou semanal. Até aí tudo bem. Mas esse não é o meu caso. Anseio por notícias, quase que diárias, sobre determinados assuntos: mundo animal, ufologia, política (agora nem tanto), ecologia, novidades em utilidades domésticas, jardinagem, arquitetura e decoração, filosofia... e quase tudo encontro nas páginas que sigo através do facebook, o que facilita minha atualização nesses assuntos. Porém, não há como ficar alheia a certas postagens, que vem de encontro àquilo que faz parte da minha filosofia de vida e das coisas pelas quais brigaria por acreditar profundamente. O problema está justamente aí, essa teia de singularidades e contradições torna inviáveis alguns relacionamentos, mesmo os ditos virtuais, pelo simples fato de que uma amizade precisa de certos elementos para fazer sentido como: gostos semelhantes, senso de humor em comum, espontaneidade, confiança, admiração e respeito mútuo. É evidente que muitas vezes descobrimos pessoas encantadoras e muito mais parecidas conosco do que podíamos sequer imaginar, e aquele amigo casual passa a ser uma grata surpresa.
       Entretanto, a decepção pode surgir de modo recíproco, já que o outro tem suas  peculiaridades tanto quanto você: sendo ele ateu, agnóstico, religioso fervoroso, ativista político, e ao perceber que você não compactua com suas ideias ou ideais, tem a mesma sensação que a sua: a amizade foi um ledo engano, e desatar esse relacionamento de fachada é o melhor a fazer. Não estou aqui dizendo que devemos romper com aqueles que pensam diferentemente de nós, mas tentando entender o porquê de algumas pessoas incluírem estranhos aos seus “contatos” para logo após passar a travar com elas verdadeiras batalhas on-line: carregadas de ofensas, indiretas e mágoas. Isso não é um contrassenso? A prática da amizade não deveria ser um componente no processo que possibilita lidarmos qualitativamente com os percalços diários, já que a vida tem suas penalidades?
     É aqui que a “porca torce o rabo” como diria minha avó, é inequívoco o fato de que precisamos conviver com opiniões divergentes, mas quando essas extrapolam e distorcem seus conceitos que foram devidamente alicerçados sob sua filosofia de vida, nada mais há a fazer. O ideal é que cada um siga seu caminho sem a máxima de que quanto mais amigos melhor. Você pode gostar de futebol, enquanto eu não. Eu sou uma “devoradora” de tudo que aborde o tema ufologia, filosofia, antropologia. No entanto, entendo que ninguém precisa ser adepto daquilo que instiga minha curiosidade, basta respeitá-la. E respeito mútuo é a chave que faz essa ignição funcionar. Caso contrário é provável que a amizade desande. Mas a questão é justamente essa: o degringolar é muito fácil de ocorrer quando se percebe que o amigo virtual não é quem você pensava ser: vocês não combinam sobre aspecto nenhum. São como a água e o vinho, o joio e o trigo. Ele não gosta de animais e/ou de gente; faz piadas homofóbicas; demonstra ser racista; egocêntrico, destila veneno em cada postagem; ostenta ser o que não é: colocando-se num pedestal de superioridade; e ao final de tudo, então, você percebe que não foi a máscara dele que caiu, mas o seu modo de percebê-lo que se alterou. E isso me faz lembrar uma frase que seguidamente circula pelo face: “Não foi outro que mudou, foi você que criou expectativas demais em cima dele”. O que talvez você não esteja entendendo é onde eu estou querendo chegar. Pois bem, eu tenho refletido muito sobre essa questão intrínseca, pós facebook, que leva muitas pessoas a buscar de forma doentia uma socialização forçada: basta um esbarrão com alguém, em qualquer lugar, para que instantaneamente receba uma solicitação de amizade dessa criatura, cujo nome você ainda nem assimilou direito. Isso não faz sentido! Você querer resgatar certas pessoas, pelo passado incomum que tiveram, é até compreensível, mas transgredir a ordem natural das coisas, através de um pedido, sem sentido, de amizade, é algo impensável, até mesmo invasivo.
     Em contrapartida tenho observado que os relacionamentos reais, entre amigos, estão mais voláteis e desbotados. Assim o afeto vai sendo conservado em barril de carvalho, num ambiente fechado e sem ventilação, possibilitando sua evaporação. E as redes sociais, facebook, Instagram, Snapchat, WhatsApp, Twitter e similares, de certa forma contribuem de forma paulatina para que percamos o interesse social mais efetivo uns nos outros. E o paradoxo está nessa forma, contemporânea, complicada de cultivarmos as amizades. Dessa maneira os amigos virtuais criam uma sensação falsa de intimidade e amizade, mesmo que ilusória, enquanto os amigos, de fato, construídos sobre bases sólidas, longe dessas páginas de relacionamentos, vão se tornando distantes, superficiais, quando os laços são abalados justamente por esse contato informal. Em suma, a tecnologia que esta aí, e não deve ser desprezada, veio, no caso das redes sociais, para nos mostrar o quanto há falhas em nosso modo de comunicação. É essa fragilidade, portanto, que pode ser ou não interpretada através dos emojis, símbolos que utilizamos de forma implícita para dizer aquilo que queremos de forma pragmática. A sutileza nesse modo simbólico de conversação sugere justamente a objetividade frequente com que passamos a tratar nossos amigos, já que os signos representam uma linguagem universal, sem maior comprometimento. Então ao perguntarmos se o outro está bem, ele nos envia uma confirmação através do signo da “mãozinha positiva”. Logo, sem maiores comentários, e para o nosso deleite, não foi preciso um envolvimento de fato, o que talvez pela falta de tempo e de interesse efetivo, tenha nos deixado até mesmo aliviado. Todavia, essa comunicação ciberespacial que passamos a estabelecer de forma pluralista com os nossos amigos, passou a dissociar-se do ambiente físico, onde ele era presente, para estender-se somente no espaço tecnológico, proporcionando uma ação à distância e apática, inconstante e praticamente fantasmagórica. Diante disso é provável que muito em breve venhamos descobrir que a melhor forma de interagir e se inter-relacionar com os amigos seja através da velha e boa comunicação “primitiva”, onde o diálogo era praticado olho a olho e a energia fluía de forma natural, ou terminaremos isolados e solitários nesse mundo de relacionamentos descartáveis.



terça-feira, 8 de março de 2016

He for She, She for He

          O presente texto, embora tenha sido motivado pelo Dia Internacional da Mulher, em homenagem às 129 operárias que foram incineradas debaixo do abafado caos têxtil, ocorrido nos Estados Unidos, em 1857, é direcionado especialmente aos homens, que ainda hoje relutam em aceitar que a mulher não é um ser inferior feito a partir da sua costela, como querem crer alguns milhares que ainda vivem na idade média, envoltos em conceitos de Neanderthal. E aqui se inicia uma guerra sem sentido quando a desigualdade de gênero transforma homens e mulheres em rivais. Mas nem sempre foi assim, já que na antiguidade a mitologia grega dava a mulher o tratamento de divindade quando a endeusava e respeitava através das figuras das deidades Artemis, Atena, Afrodite, Deméter, Hera, Perséfone, Pandora e Gaia. E alguns homens souberam ver no sexo oposto esse mesmo encantamento, como no caso do filósofo alemão, Arthur Schopenhauer  ao afirmar que “A mulher é um efeito deslumbrante da natureza.”
      Porém, a partir do surgimento das religiões patriarcais a mulher deixou de ser admirada e foi relegada a um segundo plano, como sendo um ser inferior. E por epístolas iguais a essas contidas no Velho Testamento: Deuteronômio 22:20-21 – “Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti.” E por devaneios cruéis iguais a este e interpretações machistas muitas mulheres tiveram suas vidas destruídas ao inocentemente se entregaram por amor ou porque desejaram isso: o prazer pelo prazer, e somente por esse motivo foram rejeitadas, mortas ou condenadas a uma vida miserável e discriminatória. Mas para o nosso completo desespero isso ainda não acabou, mesmo agora em pleno século XXI. Como pode uma fêmea não ter o direito de decisão sobre o seu próprio corpo? Que cultura machista e preconceituosa que impõe a ela essa intransigência de refrear seus desejos em nome de uma moral contestável? Entretanto esse modo de pensar infelizmente é compactuado também por muitas mulheres que não se permitem raciocinar sem uma ponta de ousadia e amor próprio, evidenciando o quanto é rasa sua percepção sobre si mesma.  
        Diante disso podemos perceber que essas crenças difundidas, ao longo da história da humanidade deixaram suas sequelas e foram determinantes para que a fêmea humana perdesse seu espaço na sociedade, sendo cerceada e subjugada por séculos de desprezo e humilhação. Porém, hoje, não buscamos essa representação de divindade, nem tão pouco merecemos a condição de inferioridade. Nossa pretensão se dá em nível do reconhecimento social a que temos direito como “seres pensantes”, num óbvio e justo desafio para o equilíbrio nas relações de gênero. Por isso não precisamos de proteção, mas unicamente de respeito, dignidade e aceitação pelo papel que desempenhamos na sociedade, como mães, irmãs, tias, sobrinhas, filhas, amantes, namoradas, esposas, colegas, amigas... Basta dessa composição equivocada de que somos o sexo frágil, porque sabemos ser essa a mais abominável das mentiras, e isso é fácil de comprovar ao lançarmos luz sobre os membros do chamado sexo “mais forte” quando quase sucumbem ao contraírem uma “simples” gripe. Imagine se um homem tivesse que encarar uma gravidez, cólicas, TPM..., sem querer desmerecer a sua força, porque é óbvio que ele tem qualidades e robustez. Assim cada gênero com a sua energia inerente dada pela mãe natureza, que ao que tudo indica assumiu sozinha a criação do mundo, já que nunca se ouviu falar no "pai" natureza (sic). Portanto torna-se inaceitável os estereótipos atribuídos à identidade de gênero, isso porque o conjunto de crenças acerca dos atributos pessoais adequados a homens e mulheres, individuais ou partilhados, são muito singulares e não devem servir de base para o surgimento e engessamento dos conceitos subjetivos e preconceituosos. Já que sabemos que estudos divulgados revelam que as diferenças biológicas entre homens e mulheres começam a ser estabelecidas pela ação dos hormônios sexuais ainda dentro do útero materno. Assim seria compreensível que pela distinção de gênero, fossemos minimamente respeitadas por nossa condição biológica.

        Dessa forma ao homenagearmos as mulheres, mesmo a data tendo sido criada por uma boa razão, acredito que fomentamos ainda mais esse movimento sexista. Não precisamos de uma data específica, iguais a tantas outras criadas justamente para nos lembrar de que o restante do ano serão esquecidas, como o dia da árvore, dos pais, das mães, dos idosos, da consciência negra... É necessário, sim, buscarmos de fato meios de combate à violência doméstica, o fim do assédio moral e sexual, a luta pela igualdade de gênero, num mundo mais democrático e justo. Ainda que o preconceito contra a mulher esteja disseminado nas mais diversas esferas sociais, não devemos compactuar com essa situação de opressão.  Diante desse contexto devemos evitar a transformação dessa luta pela ditadura da igualdade, simplesmente porque corremos o risco de nos tornarmos tão iguais aos nossos algozes, no momento em que esquecemos que somos seres humanos e que somente lutamos para que isso seja reconhecido amplamente. Denis Diderot certa vez disse: “Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo” Por isso dou apoio à campanha He for She, desde que ela seja She for He, como sempre deveria ter sido desde o princípio da criação: Eles por Elas, Elas por Eles.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Os seios que alimentam

O olhar dele para ela é de encantamento. Lindo!
     
     Minha abordagem nesse texto vem reforçar aquilo que acredito ser o grande mal da humanidade: a ignorância. É do conhecimento de todos que  pertencemos por definição biológica a classe dos mamíferos: animais que mamam. No entanto, muitos humanos, que já foram devidamente desmamados, não aceitam que mulheres possam amamentar em locais públicos, nem que postem imagens desse momento sublime da vida delas em mídias sociais, sem com isso remeter a elas todo tipo de ofensas. Um ato absurdo e covarde! Algo que deveria ser considerado natural, afinal todos querem mostrar o seu melhor momento em fotos, desperta a ira de quem não consegue esconder sua perversidade e depravação. E que momento pode ser mais importante para uma mãe do que aquele em que ela se doa por inteiro àquele a quem ela carregou por tanto tempo em seu ventre? Mas inacreditavelmente isso choca os mamíferos, ditos racionais. Dá para acreditar nisso? As pessoas aplaudem, durante o desfile de carnaval, escolas de samba repletas de passistas completamente nuas desfilando descontraidamente em meio à multidão pela avenida; as praias estão abarrotadas de mulheres seminuas, usando seus minúsculos trajes de banho. Isso pode e a maioria aprova. Entretanto, como sugerem alguns, uma mulher em seu momento mais sagrado não deveria deixar seus seios à mostra. Eis o contrassenso.
Eu só vejo amor e nada mais que isso.
        Ainda que haja um consenso universal inquestionável quanto aos benefícios do aleitamento materno para um recém-nascido, algumas pessoas, do alto de sua inabalável ignorância, desejam impor às lactantes à condição de se camuflarem para só assim dar de mamar ao seu lactente. Esse fato se caracteriza pelo retardo social que representa nossa sociedade, ignorante, hipócrita e contraditória.  
Precisamos aprender a conviver em sociedade
        Mas no que diz respeito à cultura indígena, na maioria das etnias espalhadas pelo planeta, a amamentação é o processo principal onde a vida da criança só se inicia após o primeiro gole do leite da mãe. Diante dessa premissa o fotógrafo Alexander Gusov registrou o encontro de sua esposa Sasha com mulheres da tribo himba, na Namíbia em 2003, quando elas tocam em seu seio. Ele contou, na ocasião, que entrevistou uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres não cobrem os seios. Ela revelou a ele que as índias dessa tribo estão sempre amamentando seus bebês. E quando a antropóloga lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados pelos seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Riram tanto que desabaram no chão. “Quer dizer que os homens agem como bebês?”, questionaram as índias. Agora imagine você se elas soubessem que em muitas sociedades, ditas civilizadas, são impostas condições para que uma mãe possa amamentar seu filho, sendo a camuflagem uma delas. O fato é tão absurdo que fica a pergunta: será que vamos precisar de uma Lei que venha garantir esse direito tão básico quanto à própria vida?
      Recentemente pude observar algumas mulheres e seus bebês, enquanto elas aguardavam consulta com o pediatra. Duas delas estavam amamentando, outra oferecia à criança uma mamadeira; frustrada esta última contou às demais que devido a um problema nos seios não tinha conseguido amamentar. Foi então que “entendi” a histeria contra esse processo tão natural quanto à própria criação. Não é o ato que provoca o desconforto nas pessoas mal resolvidas com sua sexualidade, mas a beleza da embalagem da “lactação”. É isso mesmo. As duas lactantes tinham idades distintas. Uma muito jovem, com seus belos seios; já a outra era praticamente uma senhora. Visivelmente constrangida a mais jovem, uma moça muito bonita, ao perceber os olhares curiosos de um homem e da mulher sisuda que o acompanhava, cobriu o rosto da criança e o seio com um pano branco, enquanto a outra senhora, já de certa idade, continuou amamentando sem chamar a atenção. Assim concluí que as mulheres tanto quanto os homens atribuem aos seios o poder da erotização e da sedução, em qualquer circunstância. Por isso aqui cabe a frase de François La Rochefoucauld A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.” Para essas pessoas a amamentação não deixa de ser uma provocação da libido. Por isso elas preferem o isolamento da mãe e do bebê, mesmo que a pobre criança esteja se esgoelando de fome e a mãe não tenha um lugar apropriado para se “esconder” do assédio "sexual" velado e doentio de quem não consegue dissociar o erotismo do sagrado. O problema é que o mal está nos olhos de quem vê. Como diria a saudosa personagem da Escolinha do Professor Raimundo, Dona Bela, “Eles só pensam... naquilo”.
Aonde está a depravação nisso?
      Dentro desse contexto, os adultos desmamados precisam rever seus conceitos e procurar ajuda terapêutica, visto que uma mulher que amamenta está cumprindo seu papel perante à natureza, já que se conhece o valor atribuído ao leite materno e os predicativos da amamentação como fenômeno biológico e suas inúmeras virtudes como fator de desenvolvimento afetivo entre uma fêmea e sua cria. O que não é normal é que uma mulher, coagida, tenha que se esconder para amamentar. Que outro mamífero faz isso, que não seja para escapar de uma presa? Será que as fêmeas humanas ao oferecerem seus seios como fonte de alimento aos seus filhos podem se tornar presas?
Ela continua sua jornada enquanto amamenta 
Todavia, a maioria das mulheres concorda que essa é a fase mais linda de uma fêmea humana, é quando ela estabelece um vínculo de amor profundo com aquela criaturinha que será para sempre a coisa mais importante na sua vida. No entanto, este fato onde a mulher passa por humilhação demonstra que as dificuldades encontradas para manutenção da prática da amamentação é um problema de uma sociedade desajustada moralmente. Portanto, está mais do que na hora de os órgãos governamentais, organizações não governamentais e, principalmente, profissionais da área da saúde, promoverem campanhas que visem esclarecer de forma efetiva a inserção do exercício de amamentar como uma forma natural dos mamíferos. E aqui cabe ressaltar que nesse caso “Não há outro pecado além da estupidez.” Oscar Wilde.  
Quem somos nós?

     Diante desses transtornos à amamentação, fica evidente que para certas pessoas os valores foram invertidos e subvertidos e que é preciso que toda a sociedade interprete o aleitamento materno como uma condição normal a todos os mamíferos, como fator de um movimento natural da espécie, qualquer coisa, além disso, é desvio de conduta daquele que observa uma fêmea alimentando sua cria e sente-se afrontado. E não me venha com a velha máxima de que tudo se dá em defesa da moral e dos bons costumes porque muitas vezes Os costumes são a hipocrisia de uma nação.” Honoré de Balzac


    


sábado, 28 de novembro de 2015

A crueldade nos transforma no único animal a temer


     Diante de uma série de acontecimentos ocorridos nos últimos tempos, envolvendo maus tratos aos animais, venho me perguntando continuamente para onde caminha a humanidade? Com que direito tomamos às rédeas da natureza em nossas mãos, definindo de forma sádica o destino dos outros seres que habitam esse planeta? No entanto, para a maioria das pessoas a única maldade que realmente deve ser levada em consideração é aquela praticada contra os próprios seres humanos, os únicos que entendem como sendo seus semelhantes, o restante nasceu para morrer, então como estamos, supostamente, no topo da cadeia alimentar, - que estamos fazendo questão de desequilibrar com a nossa falta de bom-senso -, não importa o quanto eles possam sofrer, desde que suas mortes tenham um propósito humano ou desumano, tanto faz, pois são considerados inferiores mesmo. Dessa forma são abatidos diariamente para satisfazer, sob os mais variados pretextos, as necessidades de consumo do homem e suas frivolidades, sendo eles: cachorros, gatos, raposas, coelhos, chinchilas, jacarés, baleias, golfinhos, tubarões, cobras, gado, cavalos, jumentos, javalis, elefantes, rinocerontes, tartarugas, aves... Não basta matar para saciar a fome, é preciso abater para atender as futilidades exigidas pela vaidade, que pode ser considerada como “um princípio de corrupção”, como já disse Machado de Assis, escritor brasileiro. Portanto podemos concluir que A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana. Charles Darwin, naturalista britânico.
Adicionar legenda
     Para piorar esse quadro caótico o mundo das pseudo-celebridades contribui na medida que atiça e incentiva esse mercado carniceiro. As maiores responsáveis por essa monstruosidade são as mulheres ditas “famosas” que fazem uso de roupas de peles de animais, como a Lady Gaga, a Rihanna, entre outras. Sendo que a cantora Rihanna, assim como a personagem Cruela do desenho animado, desejou ter uma vestimenta confeccionada com pele de animal. Ela encomendou um vestido de pele de raposa e fios de ouro, feito por um estilista chinês que, segundo eu imagino, deve ser um grande apreciador de carne de cachorro. Porém, ela não está sozinha, muitas outras personalidades famosas adoram desfilar suas onerosas roupas para entretenimento e ostentação, mesmo que isso signifique o preço de uma vida, ou de várias. Mas o que para muitos pode ser considerado um luxo, eu classifico como lixo: já que literalmente foi feito com as “sobras” de uma criatura indefesa, que muito deve ter sofrido. O que me conforta é saber que “Chegará o tempo em que o homem conhecerá o íntimo de um animal e nesse dia todo crime contra um animal será um crime contra a humanidade.” Leonardo da Vinci, polímata italiano.  
     Onde está o homem moderno mesmo? Qual a diferença entre nós e os homens das cavernas? Eles não matavam para se exibir. Suas necessidades eram reais, matavam pela própria sobrevivência. Agora “arrastar animais mortos” dissimuladamente em nome de uma pseudo-moda é demais para a minha compreensão. Notem que mesmo relatando a imensa maldade praticada diariamente contra os animais, não vou aqui me ater àquelas outras criaturas das trevas que enterram animais vivos, jogam óleo quente, arrastam pelas ruas, porque essas pessoas são dementes e não há conscientização possível para elas, a não ser a lei do retorno, mas isso não é conosco é com a lei dos homens, quando estes são identificados, e com Deus.
    Não sou hipócrita, entendo que somos uma espécie carnívora, por natureza. Mas por que estamos incluindo mais “mortes” no nosso cardápio diário que por si só já é horripilante? Também me causa estarrecimento perceber que a matança de determinados animais causa prazer em muitos seres humanos, como a caça por exemplo. Onde está gozo nisso? "Eu sou a favor dos direitos animais bem como dos direitos humanos. Essa é a proposta de um ser humano integral." Abraham Lincoln, ex-presidente e político estadunidense. Portanto, o que de fato repúdio é a forma cruel como esses bichos são mortos; o processo doloroso a que são submetidos, antes que venham morrer, faz com que eu me sinta a mais impotente das criaturas, por não conseguir protegê-los dessa monstruosidade arquitetada por seres que se consideram racionais. Há um enorme abismo moral entre matar por sobrevivência e matar pelo simples prazer do paladar ou por arrogância. E vale todo tipo de justificativa para essa arbitrariedade. Não vou aqui descrever tais fatos porque sinceramente não tenho forças para tanto, e quem tiver maior interesse que faça sua própria pesquisa. Sinceramente acredito que “Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada.” Anatole France, escritor francês.
     Na verdade só estou escrevendo sobre esse acontecimento bárbaro porque acredito que somente a conscientização singular de cada um pode mudar esse cenário infernal. Porém confesso que faço isso com o coração palpitando de revolta e dor. Quem já não ouviu falar no tal foie gras, essa comida francesa, feita com fígado gordo de ganso e pato, que para chegar ao ponto desejado, o pobre animal precisa comer até não suportar mais. Tudo para que alguns imbecis possam saborear algo que provocou tanto sofrimento. Que mundo é esse que esfola um animal vivo para retirar-lhe o couro com maior facilidade e garantir assim a qualidade da sua pele? Assim fazem com os cachorros, vacas, porcos, gatos, focas, tubarões, mundo afora. Uma técnica apreciada pelos devotos do dito “couro amaciado”. E quanto ao uso de penas de aves em eventos festivos? E o consumo de carne de vitela? E a retirada do marfim dos elefantes e do chifre de rinoceronte, com o propósito de ornamentar objetos e fazer infusões afrodisíacas ou usar como perfumes e cosméticos, respectivamente. Você já parou para pensar que Os animais que você come não são aqueles que devoram outros, você não come as bestas carnívoras, você as toma como padrão. Você só sente fome pelas criaturas doces e gentis que não ferem ninguém, que o seguem, o servem, e que são devoradas por você como recompensa de seus serviços.” Jean-Jacques Rousseau, filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço 
      Como o ser humano consegue visualizar sua imagem refletida no espelho sem o mínimo remorso por causar tanto sofrimento? Quem responde é o filósofo alemão Arthur Schopenhau “Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.” Ah, tudo bem, você não se importa não é mesmo? Pois fique você sabendo que existe uma lei universal de causa e efeito, ou seja, tanta barbárie não ficará impune É compreensível que os indivíduos de má índole, que se deleitam com a prática do mal, estejam de tal maneira deformados moralmente, que para eles nada valerá tanto como o prazer sádico de ver os outros sofrerem. No entanto, somos nós que temos a consciência dessa crueldade que temos a obrigação de fazer cessar este processo de selvageria, abusivo e injusto. Assim sendo, se não for pela sua sobrevivência, não consuma produtos que possam impor tanto sofrimento aos animais. Pesquise sobre o que você está comendo. Se o foie gras causa agonia as pobres aves, despreze-o, existem outras opções de alimento. Se a tão deliciosa Nutella - assim como vários outros produtos - que é feita à base de óleo de palma, árvore que está causando a destruição do habitat dos orangotangos e dezenas de outros animais nas ilhas da Indonésia – Sumatra e Bornéo - devido à imensa procura pelo produto, já que houve nesses locais uma grande devastação da mata ciliar que foram substituídas pela plantação dessas árvores que invadem a África Ocidental pelas mãos de grandes corporações chinesas, arrasando agora o habitat dos gorilas, chimpanzés e babuínos, deixe de consumir este produto, ou faça substituição por algo que seja ecologicamente sustentável. Nós temos a força e a opção, não somos escravos do paladar. Muitos afirmam que não abrem mão do prazer de provar comidas exóticas e saborosas. E se a carne humana  fosse apreciada por ser a melhor dentre todas as iguarias, algo difícil de resistir, você se submeteria a experimentar? Você mataria por isso? Não!? Isso talvez porque você saiba que o prato principal um dia poderia ser você. Ah, entendi, você considera essa hipótese um absurdo, algo insano, reprovável, uma verdadeira blasfêmia. Ótimo! Os animais têm os mesmos direitos que os seres humanos. Esse planeta é tão nosso quanto deles, por isso ensine seus filhos desde cedo porque “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.” Arthur Schopenhauer, filósofo alemão. Pássaros foram feitos para voar, não para ficar engaiolados, rodeios são divertimentos bárbaros e impróprios para Nações civilizadas. Animais merecem respeito e amor. Impor sofrimento a eles é inadmissível. E saiba que cada vez que um animal entra em extinção, um pouco de nós desaparece com ele. Não aceite calado os maus tratados impostos aos nossos semelhantes. Ao ver um animal ser maltratado, não tenha medo de se expor: grite, exija respeito. Vamos mudar esse mundo para melhor, pois “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados.” Mahatma Gandhi, líder pacifista indiano que lutou pela independência da Índia e pela paz entre hindus e muçulmanos. 
Se você se identificou com esse texto e concorda com o que está escrito nele repasse para os seus amigos, colegas, parentes, conhecidos... Façamos uma corrente do bem em prol daqueles que não podem se defender de tanta maldade.



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sem liberdade estamos fadados à loucura

       É com um misto de incredulidade e decepção que vejo a todo instante nas redes sociais as pessoas se digladiando com a intenção de medir qual das duas tragédias merece mais atenção, se a ocorrida em Mariana, Minas Gerais, ou a de Paris. Quanta bobagem! Os dois acontecimentos são dois dramas distintos, e igualmente importantes, pois ambos destacam a ignorância humana e a falta de amor ao próximo, e que cada um, de forma singular, possa se identificar mais com um do que com o outro ou com os dois; isso se chama liberdade de escolha. No entanto, não vou aqui me distender falando das duas tragédias porque creio que praticamente tudo já foi dito. Apesar dos muitos absurdos que tenho lido nesses últimos dias, denotando que a maioria não tem a mínima ideia sobre as razões pelas quais escolheu um dos dois acidentes para “sofrer mais”, embora isso tenha seu lado positivo: evidencia que somos livres para fazermos nossas escolhas, e de acordo com elas expressar nossas opiniões, de forma correta ou equivocada, de acordo com o ponto de vista singular de cada um; e é sobre isso que venho aqui discorrer: o direito à liberdade de expressão, direito de vivermos como quiser, sem com isso provocar nenhum um dolo ao outro. Isto é o que se espera de um mundo civilizado e contemporâneo, onde todos tenham seus direitos civis assegurados. Isso é democracia.
     
       A tragédia de Mariana impactou muito, não só pelo aspecto humano, mas também pelo aspecto ambiental. Assassinamos um rio e toda a vida que havia nele e nos arredores! Isto é horrível! Mas aqui podemos gritar e apontar os culpados, exigir providências dos responsáveis. Mais uma vez podemos dizer que, apesar do horror dessa catástrofe ambiental e social, temos a democracia como base para mudar o que está errado. Já o ocorrido em Paris foi uma tentativa de calar o mundo pela imposição de valores que sequer consigo imaginar para a minha vida ou para as pessoas com as quais convivo.  Que mulher quer viver submissa a um homem? Que mulher moderna e inteligente ambiciona ter seus desejos sufocados, receber ordens, se tornar escrava sexual, ser estuprada diariamente, apanhar, usar trajes fechados, ser usada como moeda de troca, não ter o direito de estudar, trabalhar, não ter opinião própria, enfim qual mulher deseja se tornar um zumbi, ou seja: uma morta viva? É isso que o Estado Islâmico pratica diariamente e prega como filosofia religiosa. Pois eu prefiro pegar numa arma e lutar até a morte ao deixar que um bando de doente mental, trogloditas, retrógrados, imbecis de posses de todo tipo de armamentos, venham ditar princípios e comportamentos e acabarem com aquilo pelo qual tanto lutamos: nossa democracia e liberdade. 

Há séculos, batalhamos por um mundo igualitário, é certo que temos avançado a passos de tartaruga, mas estamos caminhando para que todos, eu disse todos, tenham os mesmos direitos. Nós mulheres, já passamos por tantas humilhações perante esse mundo machista e sexista; fomos extorquidas de exercer nossos direitos civis, e somente agora começamos e vislumbrar mil possibilidades e a conquistar o espaço que é nosso por direito, como seres humanos. E assim como nós o mesmo aconteceu aos homossexuais, negros, judeus, deficientes físicos. Sofremos tantos abusos em decorrência do preconceito, da discriminação de gênero e raça, e quando penso que ainda há tanto por conquistar, vem um grupo radical, atrelado a um passado de horrores e punições, querendo implementar pela força uma forma de viver (se é que podemos chamar isso de vida) baseado em leis ultrapassadas, que não contribuem minimamente para o desenvolvimento da humanidade. Criaturas cruéis, imbecis que, de posses de todo tipo de armamento, tentam ditar princípios e comportamentos, com o intuito de propagar um estilo de vida permeado pelo uso da força e violência e por ideias radicais. Não, não podemos deixar que eles sequer sonhem com tal possibilidade. Somos todos iguais e livres! Precisamos caminhar para uma elevação espiritual e social, e qualquer coisa que se oponha a isso se chama loucura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie Hebdo

Eles não reconhecem o poder da argumentação
        Eis aqui uma questão que parece, hoje, estar dividindo o mundo. Ou você está a favor ou contra Charlie Hebdo. Fato que se deve a esse acontecimento absurdo ocorrido na França, onde 12 pessoas morreram devido a represália feita por extremistas a publicação de um cartoon, com a imagem de Maomé, num periódico daquele país. A intenção aqui não é questionar sobre a legitimidade dada à liberdade de expressão, mas tentar entender porque algumas linhas mal traçadas publicadas num jornal, que servirá certamente de embrulho, no dia seguinte, após a sua publicação, pode servir de motivo para que atos bárbaros e insanos fossem cometidos. 
    Ao observarmos acontecimentos tão bizarros, podemos concluir que esses terroristas são simples adoradores de ancestrais. Ou seja, desconhecem qualquer traço de civilidade. Falar em democracia, direitos iguais...  significa o mesmo que atirar pérolas aos porcos, eles simplesmente vivem sob total alienação. Suas atitudes evidenciam o machismo, sexismo, misoginia, racismo, enfim todo tipo de intolerância. Esse é o futuro que queremos? 
            Este refluxo traz à tona, mesmo em dias ditos modernos, o que o homem tem de pior: a ignorância, essa famigerada mãe da intolerância, que leva estes mesmos idiotas a reagirem de forma absolutamente desproporcional - como foi o caso do atentado ocorrido em Paris -, diante de uma sátira, delineada por um simples lápis. 
            Portanto, diante das evidências podemos supor que grupos isolados, com esse grau de atraso moral e social, miram nos países livres para expurgar seus próprios fracassos. Eles não reconhecem o raciocínio legítimo, o dom da palavra, muito menos o poder da argumentação. Assim eram os trogloditas: homens primitivos, grosseiros, sem nenhuma civilidade..., por isso desapareceram, porque o mundo precisa de gente que saiba amar, respeitar, dialogar...
Onde está a fé nesse ato covarde e insano?
Contudo, entendo que o atentado terrorista ocorrido na França possa ser um prenúncio de algo ainda muito maior e mais aterrorizante. Trogloditas escondidos atrás de capuzes pretos, pregando contra, mulheres, judeus, gays... e a própria liberdade. E se medidas eficazes não forem tomadas, em breve, todas as nações democráticas estarão sob a mesma ameaça. Atraso e ódio são o que esses grupos de extremistas desejam disseminar, mas o alvo principal a ser atingido é a própria democracia, e todo o conceito que vem junto com ela.
Portanto, podemos supor que se valendo de um arremedo ideológico e escuso embasamento religioso, esses extremistas usam como pretexto traços feitos a lápis, para cometerem o maior dos pecados: matar. Onde está a fé nisso? Desde quando uma religião prega o ódio e a intolerância, dessa maneira? A quem eles servem, efetivamente, senão aos seus próprios interesses?  Quem tem permissão para matar em nome de Deus? 
O que esses abomináveis homens das cavernas precisam entender é que não é fazendo desse planeta um inferno para os seus semelhantes, que encontrarão o paraíso celeste. Isso não faz sentido! Entretanto, na contramão desses atos, em nome do islamismo, a maioria dos líderes muçulmanos, afirma que o Islã prega  uma doutrina de fé onde o princípio a ser adotado deve ser o amor, a paz e a compreensão. Então cabe a pergunta: a quem esses radicais assassinos seguem? Aos seus ancestrais trogloditas cruéis e hipócritas.
Diante dos fatos não há como negar que esses marginais disfarçados de devotos de Maomé, não creem em nada, não seguem religião alguma. Somente se infiltram, como células cancerosas num organismo, a fim de destruir tudo, ainda que com isso saibam que no final não restará nada. Pois com a morte, até mesmo elas morrem. E aqui me ocorre o mais medonho dos círculos de Dante Alighieri, que é onde espero que esses extremistas sejam enviados.
 O que esses adoradores de ancestrais deveriam conhecer é a sábia frase do filósofo Francis Bacon, “O fanático não quer, o idiota não pode, e o covarde não ousa pensar.”
Enquanto isso a humanidade segue sua trajetória em busca de uma acentuada evolução, e não deve permitir que extremistas possa cercear o seu essencial desenvolvimento. E eu arriscaria acrescentar que esse é o maior perigo de fato para a humanidade, já que “O fanatismo é a única forma de vontade que pode ser incutida nos fracos e nos tímidos.” Friedrich Nietzsche.
E, em nome daqueles que, no passado, contra tudo e todos, ousaram afirmar que a Terra é redonda e que gira em torno do sol, assim como tantos outros que se arriscaram com intuito de só dizer a verdade -, mesmo correndo o risco de ser executados, nós devemos defender o direito à liberdade de expressão. Obviamente se houver excessos que os tribunais sejam devidamente utilizados para julgar os abusos. Isso é democracia, civilidade, o mais é só retrocesso.   Diante desse contexto podemos afirmar que a palavra é o único fio condutor que pode instigar um indivíduo ao combate no campo da argumentação.  “O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros.” Porém, “Tão cegos são os homens, que chegam a gloriar-se da própria cegueira!" Santo Agostinho.
      Adverso a essa premissa é a certeza do predomínio da estupidez e do anacronismo.  “Ignorar a própria ignorância é a doença do ignorante.” Filósofo e professor estadunidense, Amos Bronson Alcot. Portanto é preciso, sim, hastear uma bandeira contra o fundamentalismo religioso, que de forma hipócrita tenta impor uma estagnação mental, o que pode ser desastroso para o futuro da humanidade.
Portanto fica determinado que a existência de Deus nessa trama misteriosa do mundo só faz sentido se for para disseminar uma evolução intelectual e espiritual, de forma justa e igualitária. Pois ninguém está acima do bem e do mal, e homens e animais tem o mesmo direito a essa Terra. Je suis Charlie Hebdo, porque eu pretendo continuar sendo livre... 




segunda-feira, 13 de maio de 2013

Toda nudez será respeitada


É estranho que, mesmo depois de séculos de suposta evolução, o homem ainda não tenha aprendido ou até mesmo aceitado seu próprio corpo, quando ainda, em tempos ditos modernos, se abala diante da própria nudez, seja por admiração ou desprezo. É provável que a causa disso seja, principalmente para os cristãos, a passagem bíblica, cujo capítulo, talvez, mais instigante esteja justamente na narrativa do Pecado Original, que impõe sobre o primeiro pecador, Adão, o conhecimento de sua própria nudez, como forma de castigo por Deus, por seu ato de desobediência, por ter ele ousado comer o fruto proibido. Foge-me, entretanto, o raciocínio lógico quando penso que sendo seu Criador, porque Ele se preocuparia com algo tão natural: a condição natural da sua criatura? A verdade é que nem mesmo a mitologia aborda esse tema de forma “confortável”, assim Homero, em sua esplendorosa Odisséia, ao relatar o fato de que seu personagem mitológico, Ulisses, após o naufrágio, constrange-se por sua nudez, diante da princesa Nausícaa. Então, extremamente desconfortável o rei de Ítaca tenta esconder seu órgão sexual com arbustos. Mais de dois milênios depois e nada mudou. Provavelmente o destemido herói, 2500 anos depois, sentir-se-ia da mesma maneira: envergonhado e desamparado ao se defrontar em situação semelhante. No entanto, não podemos esquecer que em algum momento do nosso passado caminhávamos sobre a Terra naturalmente livres, e que os gregos no século V a.C organizavam suas competições esportivas completamente nus. A estátua de Sátiro, proveniente do século II a.C  evidencia um homem dormindo, talvez na rua ou numa praça, sem roupa, atitude que deveria ser considerada comum para a época. Contudo, a sociedade, principalmente a ocidental, ainda nos dias atuais, transforma esse estado natural do corpo humano na mais absurda polêmica. 

     Todavia, há quem tire algum tipo de proveito – para o bem ou para o mal - dessa 
concepção libidinosa que a nudez causa à grande maioria dos terráqueos – tirando aqui os animais irracionais, que são assumidamente mais resolvidos diante de sua própria anatomia. Um bom exemplo dessa teoria está no grupo Femen, movimento feminista que nasceu na Ucrânia em 2008, e hoje já se encontra internacionalizado. Ironicamente essa organização, que expõe geralmente os seios de suas ativistas, tem como objetivo o extermínio de práticas como turismo e exploração sexual de adultos e crianças, sexismo e todo tipo de patriarcado.  E sabe por que elas conseguem chamar a atenção? Muito simples: elas sabem que a exposição do corpo feminino, ainda hoje, tem “poder” de levar à discussão, causando controvérsias, ou seja, ninguém consegue ficar indiferente a inusitada situação, o que para o grupo torna-se positivo, assim talvez a causa pela qual elas lutam seja inserida no contexto social, ganhando adeptos. Mas nem tudo são flores.
      Aproveitando-se dessa “neurose coletiva” arraigada em praticamente toda a sociedade, já que a nudez está vinculada ao conceito abstrato de luxúria, muitas pessoas se valem desse imaginário pluralista para fazer valer seus atributos físicos, e, consequentemente, estimulam a apologia ao corpo perfeito. Quem perde? Toda a sociedade. Não existem corpos perfeitos, existem estágios da vida onde os corpos apresentam maior frescor, ninguém chega à velhice com um corpo de jovem. E aqui a coisa complica ainda mais, mas não vou me ater, nesse momento nessa questão. Minha reflexão está muito mais voltada na tentativa de entender o porquê dessa paranoia que leva muitas pessoas a buscar, a qualquer preço, uma condição física idealizada, tornando-se escravas dessa cultura industrial que fomenta a estética da perfeição. E tudo seria até normal, não fossem as inúmeras barbáries cometidas em nome dessa profana adoração. Quem é lindo e jovem sofre porque sabe que um dia deixará de ser e inevitavelmente será substituído por outro, já quem não obteve da mãe natureza a mesma generosidade no quesito beleza ou mesmo já não é tão jovem, sente-se injustiçado por sua “triste” condição humana. Inseridos, desse modo, numa sociedade na qual o processo de envelhecimento é rejeitado, muitas pessoas atiram-se na vala comum quando decidem adotar um estilo jovial de viver, mesmo que isso represente sofrimento e abnegação, ao submeterem-se a tratamentos estéticos torturantes e dietas malucas, que mais provocam malefícios do que efetivamente bem estar físico e emocional. Contudo é bom lembrar que todos caminham para o mesmo destino: a finitude inerente a todo mortal. Então porque não adotar uma atitude mais leve no modo de viver, sem que haja, com isso, tantas cobranças ou julgamentos, onde cada um seja livre para fazer suas próprias escolhas e o respeito comece pelo nosso corpo, tão complexo e sagrado, que jamais deveria ser profanado ou somente cobiçado, mas ser dignamente referenciado como portador de uma alma, sendo desnecessário que haja sobre o corpo qualquer comentário conspurcado.


domingo, 10 de março de 2013

Enfim sós

D
epois de retornar da Europa, após um período de férias, uma amiga muito querida avisou-me que irá se casar novamente, em julho próximo. O cenário não poderia ser mais romântico, na região francesa da Alsácia, há poucos quilômetros da fronteira com a Alemanha. Será a quinta vez que ela sucumbirá ao “fetiche” do casamento. Você deve estar se perguntando, mas o que há de errado nisso? Nada. A não ser o fato de que ela passa mais tempo na estrada do que em casa, pois a rotina lhe parece um verdadeiro martírio. Desde que nos conhecemos, quando fazíamos faculdade juntas, ela já era uma adepta do “voo livre”. Sua alma cigana a impede de fincar raízes em um determinado lugar ou mesmo se condicionar as frivolidades do parceiro, por isso mesmo na menor das contrariedades levanta “acampamento”, já que agora ficou mais fácil, pois está aposentada, e segue sua vida de retirante, sem ter que dar satisfação a ninguém. Todavia, nem tudo são flores, o caminho por vezes torna-se espinhoso, assim que a saudade da família aperta ou a solidão ecoa em seu âmago ela corre para o aeroporto mais próximo de onde estiver, rumo aos braços dos filhos, netos e amigos queridos. Sem contar o fato de que não raras vezes ela precisou trilhar pelas estradas da vida de forma solitária. E aqui está o motivo pelo qual minha amiga sempre decide juntar as escovas de dente: detesta viajar sozinha e as amigas ou os seus familiares nem sempre podem acompanhá-la. Por isso essa compulsão pelo casamento que, segundo sua própria definição, deve ser eterno enquanto durar a lua de mel ou a viagem. Porém, há quem veja nessa atitude singular certa futilidade, já que seria um mero acordo pré-nupcial de turismo e logística. Contudo, aqui não se pretende julgar ninguém, pois como já dizia a minha vó “o que é de gosto é regalo da vida”. Também não pretendo nesse espaço contar a vida particular dessa enigmática, maravilhosa e pragmática pessoa. Ela está feliz e isso é o que realmente importa. 
Essa história aqui narrada, até então, só serviu para abrir caminho para um assunto que nos últimos tempos têm despertado a minha curiosidade: casamento e separação. Mas afinal o que querem homens e mulheres? Se todos os outros relacionamentos foram meros enganos, como afirma minha amiga, como saber se esse não será mais um dolo? Não há como saber.


É provável que nunca na história da humanidade tantos relacionamentos tenham fracassado de maneira tão rápida, o que não significa que não tenha dado certo. Mas ainda que muitos digam que o casamento é uma instituição falida, paradoxalmente ele parece não tomar conhecimento disso, e, firme e forte, segue arrastando adeptos pelo mundo todo. Assim, somos instigados, mais cedo ou mais tarde, a entrar numa outra dimensão, onde a ordem dita que precisamos aprender a conviver com o outro, aceitando seus defeitos e aprimorando os nossos sentidos, para que seja possível uma troca efetiva nessa relação a dois, onde não será mais possível conjugar o verbo na primeira pessoa do singular.
O amor rima com dor
Na Provença, do século 12, os trovadores tinham uma apreciação complexa do amor romântico: a dor gerada pela visão da figura graciosa, a insônia provocada pela perspectiva do encontro, o poder de algumas poucas palavras ou olhares para determinar o estado de espírito de alguém. Nove séculos depois, apesar de alguns avanços, continuamos com a mesma sensação, sendo que a maioria sonha poder um dia encontrar a sua “tampa da panela”, porém, apesar dos esforços, às vezes mais de um lado do que do outro, essas peças descobrem que não foram feitas sob medida, e por isso mesmo saem à procura de outra, cujo encaixe seja perfeito e as complete de forma plena. Este é um risco calculável, mas não tem jeito, não há fórmula que garanta uma felicidade eterna, e a velha máxima de que “seja eterno enquanto dure” ainda parece a coisa mais sensata a fazer quando o ajuste não é mais possível. O que fica difícil de entender é o motivo que leva muitas pessoas a obrigar o parceiro(a) a continuar a relação, mesmo quando o amor, o respeito, a admiração, a atração e a cumplicidade deixam de existir. Essa relutância está bem exemplificada na letra da música, cujo título sugestivo chamado Pedacinhos, composta por Guilherme Arantes, elucida o que sobra da relação quando há uma conformidade e falta de auto estima... Pra que ficar juntando os pedacinhos do amor que se acabou. Nada vai colar. Nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo e os remendos pegam mal, logo vão quebrar...


Pegando carona nessa na linda composição podemos dizer que continuar um relacionamento baseado em mentiras ou sentimentos retroativos é um contrassenso, já que segundo os especialistas a paixão dura no máximo quatro anos - exceto aquela considerada platônica.  Assim, o desafio é saber transformar aquilo que sobra da euforia dos primeiros anos em amor, compreensão, respeito e cumplicidade. Isso tudo, entretanto, parece ter ficado de lado quando a maioria deseja sentir novamente a adrenalina causada pela força da paixão que faz com que a pele fique ruborizada e a temperatura do corpo ascenda, fazendo o coração bater mais rápido e o desejo sexual se tornar mais intenso, além de alterar o estado de consciência dando lugar à euforia.  Sensação que muitos procuram fora de casa. Eis os elementos que homens e mulheres, assim como um vício maldito, tentam manter a qualquer custo sob a égide do casamento. Uma batalha travada diariamente, para que a guerra a sustentar esse sonho de estar constantemente apaixonado seja vencida. E quem já não sentiu uma vontade incontrolável, de após o término da paixão, acabar tudo e dar chance a uma nova história de amor, não sabe a que me refiro. Apesar disso a maioria dos casais ainda tenta, após o fim do período romântico e turbulento, investir no relacionamento, buscando renovar o sentimento com companheirismo e afetuosidade, dando à relação certa estabilidade, canalizando seus sentimentos aos filhos, que sem saber tornam-se a desculpa perfeita, em certos casos, para que o fatídico relacionamento tenha continuidade. Embora essas atitudes nem sempre alcancem o resultado esperado, muitos casais, sem perceberem se “enterram” em nome de uma suposta posição social que o casamento possui dentro da sociedade ou até mesmo para não comprometer o patrimônio conquistado ou mesmo a felicidade dos filhos, ainda que passem a maior parte do tempo entre tapas e beijos, com a esperança de que as coisas possam ser como já fora algum dia. Entender que a relação não precisa ser para sempre talvez seja o caminho para que esta possa durar mais que as nossas próprias expectativas. 
     Contudo não há como negar, as relações ditas estáveis e tradicionais, nos dias atuais, passam por uma crise de “identidade” e apesar dos inúmeros apelos da própria sociedade em prol da união da família, o casamento atravessa por uma turbulência generalizada, expondo a fragilidade humana e a falência das relações conjugais. Não sabemos mais o que buscar no outro e nem o que ele pode esperar de nós. Ser bom já não é o suficiente, para ser feliz o ser humano exige que a sua metade da laranja seja perfeita. E assim como a minha amiga todos fogem da rotina do dia a dia.  Mas não há como fugir do óbvio, os homens com o advento da pílula azul ganharam a liberdade e a garantia de que fora de casa o desempenho sexual estará garantido. Em contrapartida as mulheres se descobriram, e mais cuidadosas exigem do parceiro o mesmo desempenho que teriam com as suas amantes. Com isso, embora as batalhas sejam vencidas ao longo do relacionamento, ganhar a guerra  se tornou bem mais complicado, porque cada um está preocupado com o seu conceito particular de felicidade. Diante disso acredito que seja muito difícil que os nossos filhos possam presenciar ou até mesmo festejar Bodas de Ouro ou mesmo de Prata, pois escolhemos que mais vale grandes emoções, ditas pelos especialistas de monogâmicas sucessivas do que a rotina de uma monogamia desvanecida. Podemos dizer, entretanto, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a sempre a possibilidade de um grande e “eterno” amor nascer após a finitude da paixão, que talvez para alguns poucos felizardos jamais tenha fim. É apostar para ver!