segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Os seios que alimentam

O olhar dele para ela é de encantamento. Lindo!
     
     Minha abordagem nesse texto vem reforçar aquilo que acredito ser o grande mal da humanidade: a ignorância. É do conhecimento de todos que  pertencemos por definição biológica a classe dos mamíferos: animais que mamam. No entanto, muitos humanos, que já foram devidamente desmamados, não aceitam que mulheres possam amamentar em locais públicos, nem que postem imagens desse momento sublime da vida delas em mídias sociais, sem com isso remeter a elas todo tipo de ofensas. Um ato absurdo e covarde! Algo que deveria ser considerado natural, afinal todos querem mostrar o seu melhor momento em fotos, desperta a ira de quem não consegue esconder sua perversidade e depravação. E que momento pode ser mais importante para uma mãe do que aquele em que ela se doa por inteiro àquele a quem ela carregou por tanto tempo em seu ventre? Mas inacreditavelmente isso choca os mamíferos, ditos racionais. Dá para acreditar nisso? As pessoas aplaudem, durante o desfile de carnaval, escolas de samba repletas de passistas completamente nuas desfilando descontraidamente em meio à multidão pela avenida; as praias estão abarrotadas de mulheres seminuas, usando seus minúsculos trajes de banho. Isso pode e a maioria aprova. Entretanto, como sugerem alguns, uma mulher em seu momento mais sagrado não deveria deixar seus seios à mostra. Eis o contrassenso.
Eu só vejo amor e nada mais que isso.
        Ainda que haja um consenso universal inquestionável quanto aos benefícios do aleitamento materno para um recém-nascido, algumas pessoas, do alto de sua inabalável ignorância, desejam impor às lactantes à condição de se camuflarem para só assim dar de mamar ao seu lactente. Esse fato se caracteriza pelo retardo social que representa nossa sociedade, ignorante, hipócrita e contraditória.  
Precisamos aprender a conviver em sociedade
        Mas no que diz respeito à cultura indígena, na maioria das etnias espalhadas pelo planeta, a amamentação é o processo principal onde a vida da criança só se inicia após o primeiro gole do leite da mãe. Diante dessa premissa o fotógrafo Alexander Gusov registrou o encontro de sua esposa Sasha com mulheres da tribo himba, na Namíbia em 2003, quando elas tocam em seu seio. Ele contou, na ocasião, que entrevistou uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres não cobrem os seios. Ela revelou a ele que as índias dessa tribo estão sempre amamentando seus bebês. E quando a antropóloga lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados pelos seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Riram tanto que desabaram no chão. “Quer dizer que os homens agem como bebês?”, questionaram as índias. Agora imagine você se elas soubessem que em muitas sociedades, ditas civilizadas, são impostas condições para que uma mãe possa amamentar seu filho, sendo a camuflagem uma delas. O fato é tão absurdo que fica a pergunta: será que vamos precisar de uma Lei que venha garantir esse direito tão básico quanto à própria vida?
      Recentemente pude observar algumas mulheres e seus bebês, enquanto elas aguardavam consulta com o pediatra. Duas delas estavam amamentando, outra oferecia à criança uma mamadeira; frustrada esta última contou às demais que devido a um problema nos seios não tinha conseguido amamentar. Foi então que “entendi” a histeria contra esse processo tão natural quanto à própria criação. Não é o ato que provoca o desconforto nas pessoas mal resolvidas com sua sexualidade, mas a beleza da embalagem da “lactação”. É isso mesmo. As duas lactantes tinham idades distintas. Uma muito jovem, com seus belos seios; já a outra era praticamente uma senhora. Visivelmente constrangida a mais jovem, uma moça muito bonita, ao perceber os olhares curiosos de um homem e da mulher sisuda que o acompanhava, cobriu o rosto da criança e o seio com um pano branco, enquanto a outra senhora, já de certa idade, continuou amamentando sem chamar a atenção. Assim concluí que as mulheres tanto quanto os homens atribuem aos seios o poder da erotização e da sedução, em qualquer circunstância. Por isso aqui cabe a frase de François La Rochefoucauld A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.” Para essas pessoas a amamentação não deixa de ser uma provocação da libido. Por isso elas preferem o isolamento da mãe e do bebê, mesmo que a pobre criança esteja se esgoelando de fome e a mãe não tenha um lugar apropriado para se “esconder” do assédio "sexual" velado e doentio de quem não consegue dissociar o erotismo do sagrado. O problema é que o mal está nos olhos de quem vê. Como diria a saudosa personagem da Escolinha do Professor Raimundo, Dona Bela, “Eles só pensam... naquilo”.
Aonde está a depravação nisso?
      Dentro desse contexto, os adultos desmamados precisam rever seus conceitos e procurar ajuda terapêutica, visto que uma mulher que amamenta está cumprindo seu papel perante à natureza, já que se conhece o valor atribuído ao leite materno e os predicativos da amamentação como fenômeno biológico e suas inúmeras virtudes como fator de desenvolvimento afetivo entre uma fêmea e sua cria. O que não é normal é que uma mulher, coagida, tenha que se esconder para amamentar. Que outro mamífero faz isso, que não seja para escapar de uma presa? Será que as fêmeas humanas ao oferecerem seus seios como fonte de alimento aos seus filhos podem se tornar presas?
Ela continua sua jornada enquanto amamenta 
Todavia, a maioria das mulheres concorda que essa é a fase mais linda de uma fêmea humana, é quando ela estabelece um vínculo de amor profundo com aquela criaturinha que será para sempre a coisa mais importante na sua vida. No entanto, este fato onde a mulher passa por humilhação demonstra que as dificuldades encontradas para manutenção da prática da amamentação é um problema de uma sociedade desajustada moralmente. Portanto, está mais do que na hora de os órgãos governamentais, organizações não governamentais e, principalmente, profissionais da área da saúde, promoverem campanhas que visem esclarecer de forma efetiva a inserção do exercício de amamentar como uma forma natural dos mamíferos. E aqui cabe ressaltar que nesse caso “Não há outro pecado além da estupidez.” Oscar Wilde.  
Quem somos nós?

     Diante desses transtornos à amamentação, fica evidente que para certas pessoas os valores foram invertidos e subvertidos e que é preciso que toda a sociedade interprete o aleitamento materno como uma condição normal a todos os mamíferos, como fator de um movimento natural da espécie, qualquer coisa, além disso, é desvio de conduta daquele que observa uma fêmea alimentando sua cria e sente-se afrontado. E não me venha com a velha máxima de que tudo se dá em defesa da moral e dos bons costumes porque muitas vezes Os costumes são a hipocrisia de uma nação.” Honoré de Balzac