segunda-feira, 13 de maio de 2013

Toda nudez será respeitada


É estranho que, mesmo depois de séculos de suposta evolução, o homem ainda não tenha aprendido ou até mesmo aceitado seu próprio corpo, quando ainda, em tempos ditos modernos, se abala diante da própria nudez, seja por admiração ou desprezo. É provável que a causa disso seja, principalmente para os cristãos, a passagem bíblica, cujo capítulo, talvez, mais instigante esteja justamente na narrativa do Pecado Original, que impõe sobre o primeiro pecador, Adão, o conhecimento de sua própria nudez, como forma de castigo por Deus, por seu ato de desobediência, por ter ele ousado comer o fruto proibido. Foge-me, entretanto, o raciocínio lógico quando penso que sendo seu Criador, porque Ele se preocuparia com algo tão natural: a condição natural da sua criatura? A verdade é que nem mesmo a mitologia aborda esse tema de forma “confortável”, assim Homero, em sua esplendorosa Odisséia, ao relatar o fato de que seu personagem mitológico, Ulisses, após o naufrágio, constrange-se por sua nudez, diante da princesa Nausícaa. Então, extremamente desconfortável o rei de Ítaca tenta esconder seu órgão sexual com arbustos. Mais de dois milênios depois e nada mudou. Provavelmente o destemido herói, 2500 anos depois, sentir-se-ia da mesma maneira: envergonhado e desamparado ao se defrontar em situação semelhante. No entanto, não podemos esquecer que em algum momento do nosso passado caminhávamos sobre a Terra naturalmente livres, e que os gregos no século V a.C organizavam suas competições esportivas completamente nus. A estátua de Sátiro, proveniente do século II a.C  evidencia um homem dormindo, talvez na rua ou numa praça, sem roupa, atitude que deveria ser considerada comum para a época. Contudo, a sociedade, principalmente a ocidental, ainda nos dias atuais, transforma esse estado natural do corpo humano na mais absurda polêmica. 

     Todavia, há quem tire algum tipo de proveito – para o bem ou para o mal - dessa 
concepção libidinosa que a nudez causa à grande maioria dos terráqueos – tirando aqui os animais irracionais, que são assumidamente mais resolvidos diante de sua própria anatomia. Um bom exemplo dessa teoria está no grupo Femen, movimento feminista que nasceu na Ucrânia em 2008, e hoje já se encontra internacionalizado. Ironicamente essa organização, que expõe geralmente os seios de suas ativistas, tem como objetivo o extermínio de práticas como turismo e exploração sexual de adultos e crianças, sexismo e todo tipo de patriarcado.  E sabe por que elas conseguem chamar a atenção? Muito simples: elas sabem que a exposição do corpo feminino, ainda hoje, tem “poder” de levar à discussão, causando controvérsias, ou seja, ninguém consegue ficar indiferente a inusitada situação, o que para o grupo torna-se positivo, assim talvez a causa pela qual elas lutam seja inserida no contexto social, ganhando adeptos. Mas nem tudo são flores.
      Aproveitando-se dessa “neurose coletiva” arraigada em praticamente toda a sociedade, já que a nudez está vinculada ao conceito abstrato de luxúria, muitas pessoas se valem desse imaginário pluralista para fazer valer seus atributos físicos, e, consequentemente, estimulam a apologia ao corpo perfeito. Quem perde? Toda a sociedade. Não existem corpos perfeitos, existem estágios da vida onde os corpos apresentam maior frescor, ninguém chega à velhice com um corpo de jovem. E aqui a coisa complica ainda mais, mas não vou me ater, nesse momento nessa questão. Minha reflexão está muito mais voltada na tentativa de entender o porquê dessa paranoia que leva muitas pessoas a buscar, a qualquer preço, uma condição física idealizada, tornando-se escravas dessa cultura industrial que fomenta a estética da perfeição. E tudo seria até normal, não fossem as inúmeras barbáries cometidas em nome dessa profana adoração. Quem é lindo e jovem sofre porque sabe que um dia deixará de ser e inevitavelmente será substituído por outro, já quem não obteve da mãe natureza a mesma generosidade no quesito beleza ou mesmo já não é tão jovem, sente-se injustiçado por sua “triste” condição humana. Inseridos, desse modo, numa sociedade na qual o processo de envelhecimento é rejeitado, muitas pessoas atiram-se na vala comum quando decidem adotar um estilo jovial de viver, mesmo que isso represente sofrimento e abnegação, ao submeterem-se a tratamentos estéticos torturantes e dietas malucas, que mais provocam malefícios do que efetivamente bem estar físico e emocional. Contudo é bom lembrar que todos caminham para o mesmo destino: a finitude inerente a todo mortal. Então porque não adotar uma atitude mais leve no modo de viver, sem que haja, com isso, tantas cobranças ou julgamentos, onde cada um seja livre para fazer suas próprias escolhas e o respeito comece pelo nosso corpo, tão complexo e sagrado, que jamais deveria ser profanado ou somente cobiçado, mas ser dignamente referenciado como portador de uma alma, sendo desnecessário que haja sobre o corpo qualquer comentário conspurcado.


domingo, 10 de março de 2013

Enfim sós

D
epois de retornar da Europa, após um período de férias, uma amiga muito querida avisou-me que irá se casar novamente, em julho próximo. O cenário não poderia ser mais romântico, na região francesa da Alsácia, há poucos quilômetros da fronteira com a Alemanha. Será a quinta vez que ela sucumbirá ao “fetiche” do casamento. Você deve estar se perguntando, mas o que há de errado nisso? Nada. A não ser o fato de que ela passa mais tempo na estrada do que em casa, pois a rotina lhe parece um verdadeiro martírio. Desde que nos conhecemos, quando fazíamos faculdade juntas, ela já era uma adepta do “voo livre”. Sua alma cigana a impede de fincar raízes em um determinado lugar ou mesmo se condicionar as frivolidades do parceiro, por isso mesmo na menor das contrariedades levanta “acampamento”, já que agora ficou mais fácil, pois está aposentada, e segue sua vida de retirante, sem ter que dar satisfação a ninguém. Todavia, nem tudo são flores, o caminho por vezes torna-se espinhoso, assim que a saudade da família aperta ou a solidão ecoa em seu âmago ela corre para o aeroporto mais próximo de onde estiver, rumo aos braços dos filhos, netos e amigos queridos. Sem contar o fato de que não raras vezes ela precisou trilhar pelas estradas da vida de forma solitária. E aqui está o motivo pelo qual minha amiga sempre decide juntar as escovas de dente: detesta viajar sozinha e as amigas ou os seus familiares nem sempre podem acompanhá-la. Por isso essa compulsão pelo casamento que, segundo sua própria definição, deve ser eterno enquanto durar a lua de mel ou a viagem. Porém, há quem veja nessa atitude singular certa futilidade, já que seria um mero acordo pré-nupcial de turismo e logística. Contudo, aqui não se pretende julgar ninguém, pois como já dizia a minha vó “o que é de gosto é regalo da vida”. Também não pretendo nesse espaço contar a vida particular dessa enigmática, maravilhosa e pragmática pessoa. Ela está feliz e isso é o que realmente importa. 
Essa história aqui narrada, até então, só serviu para abrir caminho para um assunto que nos últimos tempos têm despertado a minha curiosidade: casamento e separação. Mas afinal o que querem homens e mulheres? Se todos os outros relacionamentos foram meros enganos, como afirma minha amiga, como saber se esse não será mais um dolo? Não há como saber.


É provável que nunca na história da humanidade tantos relacionamentos tenham fracassado de maneira tão rápida, o que não significa que não tenha dado certo. Mas ainda que muitos digam que o casamento é uma instituição falida, paradoxalmente ele parece não tomar conhecimento disso, e, firme e forte, segue arrastando adeptos pelo mundo todo. Assim, somos instigados, mais cedo ou mais tarde, a entrar numa outra dimensão, onde a ordem dita que precisamos aprender a conviver com o outro, aceitando seus defeitos e aprimorando os nossos sentidos, para que seja possível uma troca efetiva nessa relação a dois, onde não será mais possível conjugar o verbo na primeira pessoa do singular.
O amor rima com dor
Na Provença, do século 12, os trovadores tinham uma apreciação complexa do amor romântico: a dor gerada pela visão da figura graciosa, a insônia provocada pela perspectiva do encontro, o poder de algumas poucas palavras ou olhares para determinar o estado de espírito de alguém. Nove séculos depois, apesar de alguns avanços, continuamos com a mesma sensação, sendo que a maioria sonha poder um dia encontrar a sua “tampa da panela”, porém, apesar dos esforços, às vezes mais de um lado do que do outro, essas peças descobrem que não foram feitas sob medida, e por isso mesmo saem à procura de outra, cujo encaixe seja perfeito e as complete de forma plena. Este é um risco calculável, mas não tem jeito, não há fórmula que garanta uma felicidade eterna, e a velha máxima de que “seja eterno enquanto dure” ainda parece a coisa mais sensata a fazer quando o ajuste não é mais possível. O que fica difícil de entender é o motivo que leva muitas pessoas a obrigar o parceiro(a) a continuar a relação, mesmo quando o amor, o respeito, a admiração, a atração e a cumplicidade deixam de existir. Essa relutância está bem exemplificada na letra da música, cujo título sugestivo chamado Pedacinhos, composta por Guilherme Arantes, elucida o que sobra da relação quando há uma conformidade e falta de auto estima... Pra que ficar juntando os pedacinhos do amor que se acabou. Nada vai colar. Nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo e os remendos pegam mal, logo vão quebrar...


Pegando carona nessa na linda composição podemos dizer que continuar um relacionamento baseado em mentiras ou sentimentos retroativos é um contrassenso, já que segundo os especialistas a paixão dura no máximo quatro anos - exceto aquela considerada platônica.  Assim, o desafio é saber transformar aquilo que sobra da euforia dos primeiros anos em amor, compreensão, respeito e cumplicidade. Isso tudo, entretanto, parece ter ficado de lado quando a maioria deseja sentir novamente a adrenalina causada pela força da paixão que faz com que a pele fique ruborizada e a temperatura do corpo ascenda, fazendo o coração bater mais rápido e o desejo sexual se tornar mais intenso, além de alterar o estado de consciência dando lugar à euforia.  Sensação que muitos procuram fora de casa. Eis os elementos que homens e mulheres, assim como um vício maldito, tentam manter a qualquer custo sob a égide do casamento. Uma batalha travada diariamente, para que a guerra a sustentar esse sonho de estar constantemente apaixonado seja vencida. E quem já não sentiu uma vontade incontrolável, de após o término da paixão, acabar tudo e dar chance a uma nova história de amor, não sabe a que me refiro. Apesar disso a maioria dos casais ainda tenta, após o fim do período romântico e turbulento, investir no relacionamento, buscando renovar o sentimento com companheirismo e afetuosidade, dando à relação certa estabilidade, canalizando seus sentimentos aos filhos, que sem saber tornam-se a desculpa perfeita, em certos casos, para que o fatídico relacionamento tenha continuidade. Embora essas atitudes nem sempre alcancem o resultado esperado, muitos casais, sem perceberem se “enterram” em nome de uma suposta posição social que o casamento possui dentro da sociedade ou até mesmo para não comprometer o patrimônio conquistado ou mesmo a felicidade dos filhos, ainda que passem a maior parte do tempo entre tapas e beijos, com a esperança de que as coisas possam ser como já fora algum dia. Entender que a relação não precisa ser para sempre talvez seja o caminho para que esta possa durar mais que as nossas próprias expectativas. 
     Contudo não há como negar, as relações ditas estáveis e tradicionais, nos dias atuais, passam por uma crise de “identidade” e apesar dos inúmeros apelos da própria sociedade em prol da união da família, o casamento atravessa por uma turbulência generalizada, expondo a fragilidade humana e a falência das relações conjugais. Não sabemos mais o que buscar no outro e nem o que ele pode esperar de nós. Ser bom já não é o suficiente, para ser feliz o ser humano exige que a sua metade da laranja seja perfeita. E assim como a minha amiga todos fogem da rotina do dia a dia.  Mas não há como fugir do óbvio, os homens com o advento da pílula azul ganharam a liberdade e a garantia de que fora de casa o desempenho sexual estará garantido. Em contrapartida as mulheres se descobriram, e mais cuidadosas exigem do parceiro o mesmo desempenho que teriam com as suas amantes. Com isso, embora as batalhas sejam vencidas ao longo do relacionamento, ganhar a guerra  se tornou bem mais complicado, porque cada um está preocupado com o seu conceito particular de felicidade. Diante disso acredito que seja muito difícil que os nossos filhos possam presenciar ou até mesmo festejar Bodas de Ouro ou mesmo de Prata, pois escolhemos que mais vale grandes emoções, ditas pelos especialistas de monogâmicas sucessivas do que a rotina de uma monogamia desvanecida. Podemos dizer, entretanto, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a sempre a possibilidade de um grande e “eterno” amor nascer após a finitude da paixão, que talvez para alguns poucos felizardos jamais tenha fim. É apostar para ver!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnaval ou bacanal


 
A
 palavra "carnaval" está relacionada à ideia de deleite dos prazeres da carne, arcado pela expressão "carnis valles", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres. E nesse caso, especificamente, precisamos concordar: a tradução é literalmente fidedigna à atual fase da festa brasileira, salvo algumas exceções. Em seu segundo livro de poesias, publicado em 1919, cujo título era Carnaval, Manuel Bandeira escreveu um poema bastante sugestivo chamado Bacanal, nele o poeta já sintetizava de forma explícita o “espírito” carnavalesco daqueles tempos: Quero beber! Cantar asneiras. No esto brutal das bebedeiras. Que e tudo emborca e faz em caco… Evoé Baco!... (continua)”. No entanto, mal sabia ele que outros carnavais, ainda mais “bacanais”, estavam por vir, e o seu prenúncio nunca fizera tanto sentido como agora, cem anos depois, onde os homens se acabam de tanto beber e as mulheres desfilam nuas pelas avenidas dos inúmeros sambódromos espalhados pelos grandes centros do país, formando dessa forma um dueto perfeito, onde a ordem dita que ninguém é de ninguém, e, ao som do tanto faz, o relevante é trocar saliva com o maior número possível de pessoas, enquanto durar a festa. Assim tudo fica resumido a seguinte premissa: no carnaval tudo é permitido e todos os brasileiros são coniventes com esse tipo de divertimento. Mentira.
Nós só precisamos mostrar arte e raça... o mais é resto
     Por isso fica impossível, nos dias atuais, pensar em carnaval sem relacionar a festa à nudez explícita e vulgarizada das muitas mulheres que desfilam nas escolas de samba, nos blocos carnavalescos de rua ou em cima de trios elétricos e aos numerosos litros de cerveja que são consumidos diariamente, durante a grandiosa celebração. É algo assombroso, para não dizer vergonhoso. O bom senso nesse caso passa longe, quando mulheres se expõem, de maneira acintosa, como criaturas atléticas e libidinosas, deixando a impressão de que estamos na era cibernética do sexo, cujas imagens de fêmeas musculosas representam o universo feminino “robotizado” de forma puramente comercial e artificial. Inseridas nesse contexto superficial desfilam bundas e peitos camuflados pela ordem carnavalesca: o poder financeiro, que nesse caso determina o valor do investimento “corpóreo”. Assim temos a ideia de que tudo pode ser negociado, até a compra de um “corpo perfeito” para incitar a pluralidade do desejo masculino. E nesse caso, obviamente, conquista mais quem pode pagar pelos incontáveis tratamentos estéticos, como fez a compulsiva por cirurgias plásticas, Ângela Bismarchi, que segundo dizem sempre compra o posto, assim como outras famosas, de rainha de bateria de várias escolas de samba. Ao que tudo indica, então, samba no pé, carisma e sedução pelos neurônios, está fora de cogitação. A priori fica estabelecido que o carnaval tornou-se um divertimento vazio, cuja imagem, para aqueles que estão de fora, é a da propagação da prostituição e do turismo sexual - impulsionado pelo aumento da chegada de turistas estrangeiros no país e pelo apelo dissoluto da festa. Mas essa leitura do que parece ser uma regra traz mais mazelas do que benefícios aos brasileiros, passando a ideia de que todos compactuam com esse comportamento explícito de vulgaridade, cuja propagação da prostituição, das brigas e do aumento considerável do consumo de bebidas alcoólicas se perpetua em nome da cultura da Nação. Prato cheio para um bacanal. E aqui essa loucura pode ser explicada por Friedrich Nietzsche quando diz que a “Insanidade em indivíduos é algo raro - mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra.”

A proliferação dos mijões deixa o passeio público intransitável
Foliões contribuem para a degradação ambiental. Até quando?
      Esse carnaval de fachada, aclamado e “vendido” no exterior, entretanto, é puro marketing financeiro, para atrair dinheiro de fora. Recursos esses que não são usados apropriadamente para eliminar o rastro de sujeira e depredação deixado pelos foliões, após o fim do feriado festivo. São milhares de produtos, latinhas e garrafas plásticas, principalmente, descartados em locais inapropriados – entupindo bueiros e poluindo os rios, lagos e o fundo do mar -, gerando uma degradação ambiental, fato que caracteriza a festividade como desgraçadamente insustentável. Ponto para o bacanal. Outro fator preponderante é a exalação do mau cheiro que fica impregnado nas vias públicas por causa da combinação de um grande número de pessoas nas ruas e o elevado consumo de bebidas, o que faz alavancar o crescimento exponencial dos “mijões de canto”. Tudo isso somado ao aumento de temperatura causa repúdio naqueles que precisam transitar pela localidade, e onde, mais tarde, são necessários milhares de litros de água para recuperação da limpeza urbana.

O carnaval é uma arte popular, e dispensa apelações
     E você que adora carnaval deve estar se perguntando: ela está sugerindo o fim do carnaval? Não se trata disso. Na verdade eu acredito que está mais que na hora de toda a sociedade e os órgãos competentes se mobilizarem com a finalidade de repensarem uma forma sustentável e digna de recuperação dessa festa popular. Sem os exageros pontuais, hoje cometidos. Se haverá desfiles de mulheres despidas, que seja em ambientes apropriados, e não em vias públicas. Se as pessoas querem beber até cair, problema delas, mas daí a sujar toda a cidade é outra coisa, se decidirem transar, que seja em locais adequados, se precisarem urinar, que o façam de forma civilizada. Aqui não está em discussão a abolição da festa. O que se espera é que o carnaval tome um rumo mais sustentável, com o resgate de certos padrões de comportamento, onde as mulheres não sejam expostas como mercadorias ou quimeras devoradoras de homens. O que se deseja é que uma bandeira de civilidade seja hasteada em prol dessa tão importante festa popular brasileira, que deveria ter como único objetivo a propagação da alegria, permeada pela responsabilidade social, cultural e ambiental. Não podemos continuar compactuando com essa forma promíscua e irresponsável de divulgação do carnaval brasileiro. Não é uma questão de preconceito ou algum tipo de moralismo religioso, mas buscar o bom senso, quiçá o bom gosto, que se perde na exposição apelativa e desnecessária de certas figuras esdrúxulas. Uma forma honrosa de resgatarmos nosso orgulho de cidadãos brasileiros. O Brasil não é só carnaval, futebol e mulher pelada! Nosso país é imenso e lindo, e, dividido por regiões, possui em cada uma delas características particulares, sendo, ainda, detentor da mais linda floresta do mundo. Mesmo que haja disparidades sociais, somos uma Nação permeada pela alegria e solidariedade. Talvez porque sejamos ainda muito jovens em relação ao velho mundo, e não tenhamos atingido a maturidade necessária para um crescimento efetivo, nos falta um pouco de juízo. Mas estamos caminhando rumo à fase adulta, e com esse solo gentil certamente chegaremos à terceira idade dignamente, depois de ter aprendido que nenhum país alcança exponencial respeito exportando conceitos abstratos de divertimento: carnaval, futebol e prostituição. Brasil mostra a tua cara!
A beleza está no gingado, no amor à escola e na fantasia...

* Como o caro leitor pode observar: procurei retratar nessa postagem o melhor do carnaval brasileiro: os desfiles primorosos de algumas escolas de samba, embora não pudesse deixar de colocar a foto dos mijões ou mesmo a imagem que representa um bacanal, na sua origem. As imagens que retratam  o lado obscuro dessa festa popular podem ser encontradas aos milhares na internet, infelizmente... Por isso decidi não fomentar ainda mais essa "vergonha nacional"...




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O beijo da ignorância e da incompetência

O
A dor dos gaúchos evidenciada no seu maior símbolo
 que dizer sobre a tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria, que ainda não tenha sido dito. Mesmo consternada e solidária aos familiares, pois amor de mãe é universal, sinto que os elementos que apontam para os culpados são equivocados. É óbvio que houve negligência, embora a soma dos produtos não altere o resultado, principalmente no que diz respeito a esse caso, foi o conjunto de vários fatores que levaram a esse fatídico acontecimento, principalmente a ignorância dos rapazes da banda; da prefeitura que concedeu o alvará e dos donos da boate que não procuraram fazer daquele local um espaço adequado à prática de divertimento seguro e responsável. Todos, em maior ou menor escala, “pecaram” por desconhecerem regras básicas de segurança: espuma + faíscas = incêndio.  Assim sendo entendo que não somente os donos da boate ou mesmo os integrantes da banda deveriam ser apontados como os únicos culpados ou negligentes. E, ainda como é possível cumprir uma legislação de segurança se ela praticamente inexiste? Onde fica a responsabilidade dos órgãos públicos, cuja obrigação era de somente conceder alvarás de funcionamento a lugares onde o “estopim e pólvora” não poderiam ser armazenados no mesmo recinto? E o que dizer daquele “projeto arquitetônico”, totalmente inapropriado para uma casa noturna, com teto extremamente baixo, corredores estreitos, escadas e uma única saída, o que evidenciava que sair daquele local, com péssima sinalização, dificultaria uma evacuação rápida e segura, dando ao ambiente um aspecto de tenebrosa arapuca. No entanto, somente agora, depois de tantas vidas ceifadas é que o assunto vem à tona. E todos os “especialistas” dão suas opiniões contundentes e definitivas: o lugar era uma verdadeira armadilha, pronta para ser acionada por qualquer um que frequentasse o lugar.  




   Propagação das teóricas penalidades divinas: Outro fator que provoca perplexidade e indignação, diante dessa tragédia é o fato de algumas pessoas fazerem piadas estúpidas com o fato, além de atribuírem à culpa ao acontecido, na boate Kiss, ao prenúncio “diabólico” visualizado num cartaz, a princípio, elaborado pela própria banda, colocado à entrada do estabelecimento, cuja imagem de uma caveira incandescente imitava a função de DJ, com corpos dançando em chamas, ao fundo. Não demorou até os crentes relacionarem o fato a todo tipo de castigo celestial ou até mesmo a algum pacto satânico. Conceito este difundido por pessoas ignorantes que se auto intitulam servas da palavra de Deus, que com isso propagam, nesse momento de tristeza e desolação, a ideia de que ser estudante universitário, alegre, jovem e bonito, e ainda ser amado pela família e amigos, é pecado passível de punição. E para piorar a inveja parece ser o grande motivador  dessas pluralistas manifestações religiosas e das piadas infames, propagadas pela internet, que ganha adeptos muito mais pelo desejo hipócrita de fazer parte, também, desse grupo particular de jovens, que sabe viver, do que por qualquer outra coisa. Dessa maneira a ignorância se aglutina ao movimento desprezível daqueles que, desprovidos de amor próprio ou de amor pelo próximo, torcem pela derrocada do outro, sob o pretexto de que essa é a vontade divina, não esquecendo de que julgar é confortável e coloca os “juízes” numa situação ligeiramente superior ao resto da humanidade.
Contudo, essa maneira de observar os fatos evidencia o que o sujeito leva no coração. Ou seja, a malícia está no olhar daquele que consegue ver perversidade em tudo, e, consequentemente, dá à maldade a elevação que ela não possui, e retira do Bem o crédito da grandeza de união que se estabeleceu entre pessoas que jamais se viram ou se conhecerão, mas que nesse momento de grande dor e tristeza, colocaram-se à disposição para ajudar da maneira como podem e com a finalidade de tentar amenizar o sofrimento de tantas famílias.
 Assim ao olharmos o tal cartaz, onde se avista um jovem, vocalista da banda, ao lado da ilustração, permeada pelo fogo, podemos afirmar que o tal anúncio chamava à celebração à vida. Então considerar essa exaltação como um mau agouro é outra ignorância de quem faz uma interpretação equivocada, sem conhecer o quanto esse elemento é necessário à humanidade, já que o fogo é um dos quatro elementos que regem o planeta, sendo considerado um símbolo sagrado em quase todas as religiões: hinduísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo...
Assim, aceitar essa teoria ridícula de que Deus teria lançado sua ira sobre aquela casa noturna, certamente é a maior blasfêmia que se levanta contra a maior e mais benevolente entidade do universo. Contudo, não se pode negar que esse deve ser o desejo dos idiotas, infelizes e mal amados, que não conseguem lidar com a própria frustração e que se alimentam da esperança de ver pessoas saudáveis e bem resolvidas “barradas” na porta do paraíso, pelo simples fato de que aqui foram felizes.  Acaso está escrito em algum lugar que a alegria deve ser combatida com castigo divino? Caso isso fosse verdade o carnaval, considerado uma festa pagã, com mulheres desfilando nuas, não sofreria muito maior penalização? E quando um templo ou uma igreja pega fogo, levando vários fiéis à morte, isso também pode ser considerado castigo? É inacreditável como o homem gosta de manipular e interpretar as leis, até mesmo a Lei Divina, que, segundo a vontade de certos seres humanos, não pode ser universal muito menos democrática, pois o que serve para condenar uns deve isentar outros. "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém." William ShakespeareNenhum mal pode ser convocado ou incitado por corações alegres e bondosos. Assim como não há cartaz algum nesse mundo capaz de provocar tamanha tragédia. Somente a ignorância e a incompetência podem causar tanta dor e sofrimento.