sábado, 31 de janeiro de 2026

A violência que começa no ódio e termina na impunidade

 



  Confesso que chegar até aqui foi mais difícil do que imaginei, porque, dentre tantas tristezas da vida, a raiva humana infundada é a que mais me amedronta. Por isso, não esperem ler neste espaço os detalhes do sofrimento ao qual o cachorro Orelha foi covardemente submetido, pois ninguém com o mínimo de sensibilidade merece ser exposto a algo tão sórdido. Contudo, é preciso lembrar que, infelizmente, a maldade contra animais não é um fenômeno raro; é sintoma de uma sociedade adoecida.

   O que aconteceu com o cão da Praia Brava, em Florianópolis, não é um caso isolado. Na verdade, outros tantos acontecem todos os dias, ainda que sem os mesmos requintes de crueldade. Esse foi o fato que chamou a atenção para o caso e deixou a população em profundo estado de choque. A brutalidade em si trouxe à tona o comportamento repulsivo de adolescentes criados em berço de ouro, que, segundo relatos de moradores, já eram conhecidos na localidade por frequentemente praticarem atos de vandalismo. 

  A comoção nacional e a indignação internacional recentemente ganharam ainda mais força com a desconfiança de que esses jovens poderiam fazer parte de grupos na internet que incitam o ódio e a tortura contra animais, através de um tal de Discord, um site abominável que fomenta práticas insanas contra seres inocentes.

  A bizarrice torna-se ainda mais perturbadora ao se constatar que a tortura foi praticada como brincadeira e entretenimento, como se a dor de um ser indefeso pudesse servir de passatempo para jovens entediados. Esse tipo de comportamento apenas evidencia o que muitos de nós já sabemos: certas pessoas, vazias em suas pobres vidas podres, em razão de sua condição financeira, acreditam estar acima da lei, protegidas por uma redoma que as coloca em uma condição especial de super-humanos, indestrutíveis e inalcançáveis pelos braços da justiça. Essa sensação de imunidade e impunidade é o que as faz ignorar os julgamentos da sociedade e transmitir à sua prole a certeza de pertencer a uma classe superior, considerada intocável, perpetuando esse sadismo irracional.

   Mas o que poderia ser apenas mais uma morte brutal, praticada de maneira rotineira contra quem não tem voz para se defender, desta vez gerou gritos de protestos e deixou de ser ignorada pela sociedade. Ao se deparar com tamanha barbárie, o povo saiu às ruas para denunciar o ato covarde, o que chamou a atenção do país que, diante da polêmica, se revoltou. Desde então, um sentimento coletivo de clamor por justiça e até por vingança inundou a web, já que é impossível ficar indiferente diante de tal brutalidade, que desafia a compreensão de quem possui o mínimo de empatia.

  Ao ouvir os relatos daqueles que conheciam Orelha, a imagem que fica é a de que aquele cachorro “vagabundo”, que vagueava pela praia, jamais imaginou que se tornaria alvo de moleques indignos e desprovidos de caráter, que provavelmente aprenderam a reproduzir a tortura contra seus algozes no conforto dos seus lares.

  Orelha foi atacado porque era presa fácil e se encontrava em situação de vulnerabilidade. Sofreu um ato de extrema covardia por não ter pedigree, pois era um sobrevivente que aprendeu, na “raça”, a enfrentar as dificuldades das ruas e a lutar diariamente pela própria sobrevivência. Ele não tinha ninguém no mundo, ainda que a comunidade olhasse por ele com carinho, mas sem grande responsabilidade. A verdade é que pertencia a muitos, mas a ninguém em especial, situação igual à de milhares de outros animais espalhados mundo afora.

  Nesse momento, imagino que aquele cão sem dono, de vida nada fácil, sempre pulando ondas e correndo atrás das gaivotas, buscava ser feliz com aquilo que a vida lhe proporcionava. Não tinha endereço fixo nem tutor que lhe garantisse abrigo permanente, mas contava com uma comunidade e turistas que, vez ou outra, lhe ofereciam afeto e até o deixavam participar de alguns momentos de confraternização. Certamente, em sua breve existência, deve ter sido algumas vezes chutado, ignorado, escorraçado e ofendido. Nada fora da normalidade diante do comportamento humano instável e egoísta. Ainda assim, já estava acostumado ao seu papel silencioso de testemunha ocular.

  Diante de um destino incerto, o vira-lata nunca se deixava esmorecer. Enquanto via o tempo passar, prosseguia em sua jornada, marcando a areia da praia com suas patas calejadas e experientes. Seu olhar atento o fazia compreender o momento certo de se recolher à sua simples casinha de madeira, sempre que esfriava ou chovia. Quantos temporais esse cãozinho deve ter enfrentado sozinho, sem ter a quem recorrer quando os trovões retumbavam de modo ameaçador, acompanhados de raios luminosos riscando o céu. Amedrontado, corria para se proteger e encolhia-se, esperando pacientemente o mau tempo passar, pois sabia que, após a tempestade, o sol voltava a despontar no horizonte. Depois, era só correr atrás das gaivotas, já acostumadas às suas travessuras. As aves sabiam que seus latidos eram muito mais para impor presença do que para intimidá-las.

   Era essa resiliência que o levava a ser grato por tudo o que havia conquistado, lambendo as mãos de quem o alimentava e matava sua sede, esfregando o focinho em quem lhe afagava o pelo. Sempre alegre, motivado pelas ondas que quebravam na praia, o cão, que era força e raça, observava o entardecer, esperando pacientemente pela noite, que muitas vezes vinha acompanhada de uma lua a iluminar o mar. Ele podia não ter tudo, mas tinha mais do que a maioria dos cães de rua: liberdade e uma praia inteira como lar. Driblava a falta de atenção constante escolhendo, naquela colcha pontilhada de estrelas, a mais brilhante; talvez sonhasse em se tornar uma delas enquanto atento contemplava o céu estrelado.

  Esse cão, sem dono, moldado pela vida dura das ruas, já havia visto de tudo: casais namorando, crianças fazendo castelinhos de areia, banhistas tomando sol, pássaros oportunistas que sabiam aproveitar as marés para se alimentar, gente humilde e pessoas sem noção. Impregnado de sabedoria canina, Orelha somente observava; não julgava, apenas se deitava sobre a areia e balançava o rabo, pois sua boa índole o impedia de julgar. Já idoso, trazia no coração segredos revelados pelo mar em noites prateadas. O faro aguçado lhe ensinara que não podia confiar em todos os seres humanos. Ainda assim, sua docilidade o fazia acreditar que nem todos agiam por maldade; muitas vezes, pensava ele, era apenas ignorância. Foi justamente essa confiança residual que o levou a ignorar seu instinto mais primitivo. O cheiro da morte tinha sido camuflado por perfumes caros. Em vez de fugir do perigo, correu em sua direção, acreditando estar diante de uma brincadeira inocente. Era tarde demais.

   A face do mal, como tantas vezes acontece, não se revelou na miséria ou na exclusão, mas em quem da vida recebeu tudo: lar, família, dinheiro, saúde e prestígio. Jovens criados sem limites, incapazes de reconhecer o outro como alguém digno de respeito, decidiram transformar a dor em diversão. Planejaram, executaram e assistiram à tortura de um ser inocente como se participassem de um jogo perverso. No entanto, a vida ensina que mais cedo ou mais tarde, o preço de tanto horror será devidamente cobrado, e, nesse dia, entre as estrelas mais iluminadas, uma luz cintilará ao testemunhar que a justiça foi feita, seja ela dos homens ou a divina.

  Dessa forma, não adianta esse jogo de poder, orquestrado por seus cúmplices, tentar camuflar a verdade. O sistema pode estar corrompido na tentativa de livrar marginais das consequências de seus atos, mas o povo, composto por vários segmentos da sociedade: ateus, gnósticos, católicos, umbandistas, evangélicos, bruxos e videntes, entre outros, permanece unido em uma força descomunal capaz de derrubar as muralhas da bestialidade que insistem em proteger garotos desprovidos de alma e de amor ao próximo. E fica a certeza: da Lei do Retorno, ninguém pode escapar.