Confesso que chegar até aqui foi
mais difícil do que imaginei, porque, dentre tantas tristezas da vida, a raiva
humana infundada é a que mais me amedronta. Por isso, não esperem ler neste
espaço os detalhes do sofrimento ao qual o cachorro Orelha foi covardemente
submetido, pois ninguém com o mínimo de sensibilidade merece ser exposto a algo
tão sórdido. Contudo, é preciso lembrar que, infelizmente, a maldade contra
animais não é um fenômeno raro; é sintoma de uma sociedade adoecida.
O que aconteceu com o cão da Praia Brava, em Florianópolis, não é um caso isolado. Na verdade, outros tantos acontecem todos os dias, ainda que sem os mesmos requintes de crueldade. Esse foi o fato que chamou a atenção para o caso e deixou a população em profundo estado de choque. A brutalidade em si trouxe à tona o comportamento repulsivo de adolescentes criados em berço de ouro, que, segundo relatos de moradores, já eram conhecidos na localidade por frequentemente praticarem atos de vandalismo.
A comoção nacional e a indignação
internacional recentemente ganharam ainda mais força com a desconfiança de que
esses jovens poderiam fazer parte de grupos na internet que incitam o ódio e a
tortura contra animais, através de um tal de Discord, um site abominável que
fomenta práticas insanas contra seres inocentes.
A bizarrice torna-se ainda mais
perturbadora ao se constatar que a tortura foi praticada como brincadeira e
entretenimento, como se a dor de um ser indefeso pudesse servir de passatempo
para jovens entediados. Esse tipo de comportamento apenas evidencia o que
muitos de nós já sabemos: certas pessoas, vazias em suas pobres vidas podres,
em razão de sua condição financeira, acreditam estar acima da lei, protegidas
por uma redoma que as coloca em uma condição especial de super-humanos,
indestrutíveis e inalcançáveis pelos braços da justiça. Essa sensação de
imunidade e impunidade é o que as faz ignorar os julgamentos da sociedade e
transmitir à sua prole a certeza de pertencer a uma classe superior,
considerada intocável, perpetuando esse sadismo irracional.
Mas o que poderia ser apenas mais
uma morte brutal, praticada de maneira rotineira contra quem não tem voz para
se defender, desta vez gerou gritos de protestos e deixou de ser ignorada pela
sociedade. Ao se deparar com tamanha barbárie, o povo saiu às ruas para
denunciar o ato covarde, o que chamou a atenção do país que, diante da
polêmica, se revoltou. Desde então, um sentimento coletivo de clamor por
justiça e até por vingança inundou a web, já que é impossível ficar
indiferente diante de tal brutalidade, que desafia a compreensão de quem possui
o mínimo de empatia.
Ao ouvir os relatos daqueles que conheciam Orelha, a imagem que fica é a
de que aquele cachorro “vagabundo”, que vagueava pela praia, jamais imaginou
que se tornaria alvo de moleques indignos e desprovidos de caráter, que
provavelmente aprenderam a reproduzir a tortura contra seus algozes no conforto dos seus lares.
Orelha
foi atacado porque era presa fácil e se encontrava em situação de
vulnerabilidade. Sofreu um ato de extrema covardia por não ter pedigree,
pois era um sobrevivente que aprendeu, na “raça”, a enfrentar as dificuldades
das ruas e a lutar diariamente pela própria sobrevivência. Ele não tinha ninguém
no mundo, ainda que a comunidade olhasse por ele com carinho, mas sem grande
responsabilidade. A verdade é que pertencia a muitos, mas a ninguém em
especial, situação igual à de milhares de outros animais espalhados mundo
afora.
Nesse momento, imagino que aquele
cão sem dono, de vida nada fácil, sempre pulando ondas e correndo atrás das
gaivotas, buscava ser feliz com aquilo que a vida lhe proporcionava. Não tinha
endereço fixo nem tutor que lhe garantisse abrigo permanente, mas contava com
uma comunidade e turistas que, vez ou outra, lhe ofereciam afeto e até o
deixavam participar de alguns momentos de confraternização. Certamente, em sua
breve existência, deve ter sido algumas vezes chutado, ignorado, escorraçado e
ofendido. Nada fora da normalidade diante do comportamento humano instável e
egoísta. Ainda assim, já estava acostumado ao seu papel silencioso de
testemunha ocular.
Diante de um destino incerto, o
vira-lata nunca se deixava esmorecer. Enquanto via o tempo passar, prosseguia
em sua jornada, marcando a areia da praia com suas patas calejadas e
experientes. Seu olhar atento o fazia compreender o momento certo de se recolher à sua simples casinha de madeira, sempre que esfriava ou chovia. Quantos temporais esse cãozinho deve ter
enfrentado sozinho, sem ter a quem recorrer quando os trovões retumbavam de
modo ameaçador, acompanhados de raios luminosos riscando o céu. Amedrontado,
corria para se proteger e encolhia-se, esperando pacientemente o mau tempo
passar, pois sabia que, após a tempestade, o sol voltava a despontar no
horizonte. Depois, era só correr atrás das gaivotas, já acostumadas às suas
travessuras. As aves sabiam que seus latidos eram muito mais para impor presença do que para intimidá-las.
Era essa resiliência que o levava
a ser grato por tudo o que havia conquistado, lambendo as mãos de quem o
alimentava e matava sua sede, esfregando o focinho em quem lhe afagava o pelo.
Sempre alegre, motivado pelas ondas que quebravam na praia, o cão, que era
força e raça, observava o entardecer, esperando pacientemente pela noite, que
muitas vezes vinha acompanhada de uma lua a iluminar o mar. Ele podia não ter
tudo, mas tinha mais do que a maioria dos cães de rua: liberdade e uma praia
inteira como lar. Driblava a falta de atenção constante escolhendo, naquela
colcha pontilhada de estrelas, a mais brilhante; talvez sonhasse em se tornar
uma delas enquanto atento contemplava o céu estrelado.
Esse cão, sem dono, moldado pela
vida dura das ruas, já havia visto de tudo: casais namorando, crianças fazendo
castelinhos de areia, banhistas tomando sol, pássaros oportunistas que sabiam
aproveitar as marés para se alimentar, gente humilde e pessoas sem noção. Impregnado
de sabedoria canina, Orelha somente observava; não julgava, apenas se deitava
sobre a areia e balançava o rabo, pois sua boa índole o impedia de julgar. Já
idoso, trazia no coração segredos revelados pelo mar em noites prateadas. O faro
aguçado lhe ensinara que não podia confiar em todos os seres humanos. Ainda
assim, sua docilidade o fazia acreditar que nem todos agiam por maldade; muitas
vezes, pensava ele, era apenas ignorância. Foi justamente essa confiança
residual que o levou a ignorar seu instinto mais primitivo. O cheiro da morte
tinha sido camuflado por perfumes caros. Em vez de fugir do perigo, correu em
sua direção, acreditando estar diante de uma brincadeira inocente. Era tarde
demais.
A face do mal, como tantas vezes
acontece, não se revelou na miséria ou na exclusão, mas em quem da vida recebeu
tudo: lar, família, dinheiro, saúde e prestígio. Jovens criados sem limites,
incapazes de reconhecer o outro como alguém digno de respeito, decidiram
transformar a dor em diversão. Planejaram, executaram e assistiram à tortura de
um ser inocente como se participassem de um jogo perverso. No entanto, a vida ensina que mais cedo ou mais
tarde, o preço de tanto horror será devidamente cobrado, e, nesse dia, entre as estrelas mais
iluminadas, uma luz cintilará ao testemunhar que a justiça foi feita, seja ela
dos homens ou a divina.
Dessa forma, não adianta esse
jogo de poder, orquestrado por seus cúmplices, tentar camuflar a verdade. O sistema pode estar corrompido na
tentativa de livrar marginais das consequências de seus atos, mas o povo,
composto por vários segmentos da sociedade: ateus, gnósticos, católicos, umbandistas, evangélicos, bruxos e
videntes, entre outros, permanece unido em uma força descomunal capaz de derrubar as
muralhas da bestialidade que insistem em proteger garotos desprovidos de alma e
de amor ao próximo. E fica a certeza: da Lei do Retorno, ninguém pode escapar.




