terça-feira, 8 de março de 2016

He for She, She for He

          O presente texto, embora tenha sido motivado pelo Dia Internacional da Mulher, em homenagem às 129 operárias que foram incineradas debaixo do abafado caos têxtil, ocorrido nos Estados Unidos, em 1857, é direcionado especialmente aos homens, que ainda hoje relutam em aceitar que a mulher não é um ser inferior feito a partir da sua costela, como querem crer alguns milhares que ainda vivem na idade média, envoltos em conceitos de Neanderthal. E aqui se inicia uma guerra sem sentido quando a desigualdade de gênero transforma homens e mulheres em rivais. Mas nem sempre foi assim, já que na antiguidade a mitologia grega dava a mulher o tratamento de divindade quando a endeusava e respeitava através das figuras das deidades Artemis, Atena, Afrodite, Deméter, Hera, Perséfone, Pandora e Gaia. E alguns homens souberam ver no sexo oposto esse mesmo encantamento, como no caso do filósofo alemão, Arthur Schopenhauer  ao afirmar que “A mulher é um efeito deslumbrante da natureza.”
      Porém, a partir do surgimento das religiões patriarcais a mulher deixou de ser admirada e foi relegada a um segundo plano, como sendo um ser inferior. E por epístolas iguais a essas contidas no Velho Testamento: Deuteronômio 22:20-21 – “Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti.” E por devaneios cruéis iguais a este e interpretações machistas muitas mulheres tiveram suas vidas destruídas ao inocentemente se entregaram por amor ou porque desejaram isso: o prazer pelo prazer, e somente por esse motivo foram rejeitadas, mortas ou condenadas a uma vida miserável e discriminatória. Mas para o nosso completo desespero isso ainda não acabou, mesmo agora em pleno século XXI. Como pode uma fêmea não ter o direito de decisão sobre o seu próprio corpo? Que cultura machista e preconceituosa que impõe a ela essa intransigência de refrear seus desejos em nome de uma moral contestável? Entretanto esse modo de pensar infelizmente é compactuado também por muitas mulheres que não se permitem raciocinar sem uma ponta de ousadia e amor próprio, evidenciando o quanto é rasa sua percepção sobre si mesma.  
        Diante disso podemos perceber que essas crenças difundidas, ao longo da história da humanidade deixaram suas sequelas e foram determinantes para que a fêmea humana perdesse seu espaço na sociedade, sendo cerceada e subjugada por séculos de desprezo e humilhação. Porém, hoje, não buscamos essa representação de divindade, nem tão pouco merecemos a condição de inferioridade. Nossa pretensão se dá em nível do reconhecimento social a que temos direito como “seres pensantes”, num óbvio e justo desafio para o equilíbrio nas relações de gênero. Por isso não precisamos de proteção, mas unicamente de respeito, dignidade e aceitação pelo papel que desempenhamos na sociedade, como mães, irmãs, tias, sobrinhas, filhas, amantes, namoradas, esposas, colegas, amigas... Basta dessa composição equivocada de que somos o sexo frágil, porque sabemos ser essa a mais abominável das mentiras, e isso é fácil de comprovar ao lançarmos luz sobre os membros do chamado sexo “mais forte” quando quase sucumbem ao contraírem uma “simples” gripe. Imagine se um homem tivesse que encarar uma gravidez, cólicas, TPM..., sem querer desmerecer a sua força, porque é óbvio que ele tem qualidades e robustez. Assim cada gênero com a sua energia inerente dada pela mãe natureza, que ao que tudo indica assumiu sozinha a criação do mundo, já que nunca se ouviu falar no "pai" natureza (sic). Portanto torna-se inaceitável os estereótipos atribuídos à identidade de gênero, isso porque o conjunto de crenças acerca dos atributos pessoais adequados a homens e mulheres, individuais ou partilhados, são muito singulares e não devem servir de base para o surgimento e engessamento dos conceitos subjetivos e preconceituosos. Já que sabemos que estudos divulgados revelam que as diferenças biológicas entre homens e mulheres começam a ser estabelecidas pela ação dos hormônios sexuais ainda dentro do útero materno. Assim seria compreensível que pela distinção de gênero, fossemos minimamente respeitadas por nossa condição biológica.

        Dessa forma ao homenagearmos as mulheres, mesmo a data tendo sido criada por uma boa razão, acredito que fomentamos ainda mais esse movimento sexista. Não precisamos de uma data específica, iguais a tantas outras criadas justamente para nos lembrar de que o restante do ano serão esquecidas, como o dia da árvore, dos pais, das mães, dos idosos, da consciência negra... É necessário, sim, buscarmos de fato meios de combate à violência doméstica, o fim do assédio moral e sexual, a luta pela igualdade de gênero, num mundo mais democrático e justo. Ainda que o preconceito contra a mulher esteja disseminado nas mais diversas esferas sociais, não devemos compactuar com essa situação de opressão.  Diante desse contexto devemos evitar a transformação dessa luta pela ditadura da igualdade, simplesmente porque corremos o risco de nos tornarmos tão iguais aos nossos algozes, no momento em que esquecemos que somos seres humanos e que somente lutamos para que isso seja reconhecido amplamente. Denis Diderot certa vez disse: “Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo” Por isso dou apoio à campanha He for She, desde que ela seja She for He, como sempre deveria ter sido desde o princípio da criação: Eles por Elas, Elas por Eles.

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